Decisão do STF proíbe ex-presidente de sair de casa, receber visitas não autorizadas e usar celular; medida ocorre às vésperas de julgamento por tentativa de golpe.
Uma mensagem de pouco mais de 20 segundos, transmitida por viva-voz a manifestantes em Copacabana, resultou no mais duro revés judicial para o ex-presidente Jair Bolsonaro. Nesta segunda-feira, 4 de agosto, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), decretou a prisão domiciliar do ex-mandatário. A razão foi o descumprimento reiterado de medidas cautelares, intensificando o cerco a poucas semanas de seu julgamento por tentativa de golpe de Estado.
A nova ordem judicial representa o mais significativo endurecimento das restrições impostas a Bolsonaro desde que ele se tornou réu.
O estopim em Copacabana
O gatilho para a decisão foi a participação de Jair Bolsonaro, ainda que à distância, nos atos de domingo, 3 de agosto. Durante a manifestação no Rio de Janeiro, seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, colocou o pai no viva-voz para que ele saudasse os apoiadores. Pouco depois, publicou um vídeo no Instagram mostrando o ex-presidente enviando uma mensagem de sua residência.
“Boa tarde, Copacabana. Boa tarde, meu Brasil. Um abraço a todos. É pela nossa liberdade. Estamos juntos”, disse Bolsonaro no vídeo, que foi removido da rede social horas mais tarde. A cena se repetiu em São Paulo, onde o deputado Nikolas Ferreira exibiu uma videochamada com o ex-presidente para a multidão na Avenida Paulista.
Para a defesa de Bolsonaro, a medida foi uma surpresa. Os advogados argumentam que a frase dita por ele “não pode ser compreendida como descumprimento de medida cautelar” e já anunciaram que irão recorrer.
“Flagrante desrespeito”, diz Moraes
Na decisão que impôs a prisão domiciliar, Alexandre de Moraes foi taxativo. Ele argumentou que Bolsonaro “produziu material pré-fabricado para divulgação nas manifestações e redes sociais”. Para o ministro, isso demonstra que o ex-presidente manteve sua “conduta ilícita de tentar coagir o Supremo Tribunal Federal e obstruir a Justiça”.
“Não há dúvidas de que houve o descumprimento da medida cautelar imposta a Jair Messias Bolsonaro”, escreveu Moraes. O ministro destacou que o ex-presidente usou as redes sociais de aliados, incluindo seus três filhos parlamentares, para divulgar mensagens com “claro conteúdo de incentivo e instigação a ataques ao Supremo Tribunal Federal”.
Moraes ainda apontou que “o flagrante desrespeito às medidas cautelares foi tão óbvio que o próprio filho do réu, o senador Flávio Nantes Bolsonaro, decidiu remover a postagem realizada em seu perfil”. A ação de apagar o vídeo, segundo o ministro, foi uma tentativa de omitir a transgressão.
Um cerco que se aperta
As novas regras são muito mais rigorosas que as anteriores, que já incluíam tornozeleira eletrônica e recolhimento noturno. Com a prisão domiciliar, Bolsonaro agora está sujeito a um confinamento total.
Ele deve permanecer integralmente em seu endereço residencial em Brasília. Qualquer saída depende de autorização prévia e expressa do STF. Além disso, está proibido de receber visitas, com exceção de seus advogados e pessoas previamente autorizadas pelo tribunal. Apenas sua esposa, Michelle Bolsonaro, e uma filha, que moram com ele, podem manter contato irrestrito.
A proibição ao uso de redes sociais foi elevada. O ex-presidente não pode mais utilizar telefones celulares, seja diretamente ou por intermédio de terceiros. Durante a notificação da decisão, a Polícia Federal apreendeu um aparelho em sua casa. Até mesmo os visitantes autorizados não poderão usar seus celulares, tirar fotos ou fazer gravações no local.
Crise diplomática e o julgamento em setembro
A decisão repercutiu imediatamente fora do Brasil. O governo dos Estados Unidos, em nota do Departamento de Estado, condenou a medida, classificando-a como uma “ameaça à democracia”. O comunicado alertou que responsabilizará aqueles que apoiarem a conduta de Moraes, em um claro tensionamento diplomático. A reação acontece após o ex-presidente Donald Trump, em julho, ter anunciado tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, vinculando a sanção ao tratamento judicial dado a Bolsonaro.
A prisão domiciliar foi decretada no âmbito do inquérito que apura a atuação do deputado Eduardo Bolsonaro nos EUA. A investigação, que corre em paralelo à ação penal do golpe, apura como ele articulou junto à Casa Branca a imposição de sanções contra ministros do STF. Segundo a Polícia Federal, a viagem do filho foi custeada com R$ 2 milhões enviados pelo pai. Para Moraes, “o modus operandi golpista é o mesmo” daquele visto nos ataques de 8 de janeiro.
Enquanto o cenário político ferve, com uma divisão quase simétrica nas redes sociais segundo o instituto Quaest, o futuro de Bolsonaro será decidido em breve. O STF marcou para setembro o julgamento do “núcleo crucial” da trama golpista. Se condenado pelos cinco crimes de que é acusado, o ex-presidente pode pegar até 43 anos de prisão.
Para entender melhor:
- Prisão Domiciliar: É uma forma de cumprimento de pena ou medida cautelar na qual a pessoa fica confinada em sua própria residência, em vez de um presídio. As regras são rígidas e incluem restrições de saída e de visitas.
- Medidas Cautelares: São restrições impostas por um juiz durante uma investigação ou processo para garantir sua eficácia. O objetivo é evitar que o acusado fuja, destrua provas, ameace testemunhas ou cometa novos crimes. O descumprimento pode levar a medidas mais severas, como a prisão.
- Coação no Curso do Processo: Crime que consiste em usar de violência ou grave ameaça para forçar alguém a fazer ou deixar de fazer algo em um processo judicial. A pena é de um a quatro anos de reclusão, e multa.
- Abolição Violenta do Estado Democrático de Direito: Crime contra as instituições democráticas que consiste em tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, impedir ou restringir o exercício dos poderes constitucionais.