“Memórias do cacique” é sobretudo uma aula de Brasil, um manifesto de alerta a uma sociedade que carrega uma dívida histórica para com os povos originários. Narra um passado de guerras entre etnias e suas “correrias” em meio a massacres de invasores brancos que trouxeram doenças e mais violência. Ele viu muitos parentes morrerem. “Os brancos são mentirosos, gananciosos, manipuladores. Eu sou testemunha disso.”
Ao ser provocado a explicar fotografias de acontecimentos históricos dos quais participou, Raoni transcende a simples cronologia de eventos para tecer uma narrativa rica na qual o mito e a história se entrelaçam de forma indissociável, refletindo a própria cosmovisão dos kayapós (“aqueles que vieram do buraco/fundo da água”), cujo tempo não se apresenta linear, isolado do passado.
Está profundamente enraizada em seus mitos de criação e nas leis que regem o Universo, segundo sua cultura.
É assim quando Raoni explica, em narrativa poética, a origem do mundo e como seu povo chegou à floresta e ao seu território, descendo do céu por uma corda feita de algodão, depois de um guerreiro perseguir um tatu-canastra que cavou um enorme buraco e achou a terra.
São essas relações com a natureza e o astral, do encantamento com a visão das matas e seus rios que dão sentido, por exemplo, a divisão de seu povo entre “dois mundos”.
Pergunto a Raoni sobre o porquê de chamar tanto a atenção da nova geração de indígenas no livro. Por diversas vezes, ele se queixa de uma atração pelo modo de vida dos brancos e do esquecimento de suas tradições. Ele diz acreditar muito neles:
— Eu penso que os jovens vão continuar lutando pela floresta, as novas gerações vão continuar lutando pela terra, pelos rios, pela vida, pela comunidade indígena.
Mas ele também vê em seus sonhos tempos difíceis para a Humanidade, sobretudo pelas mudanças climáticas causadas pela ação humana.
— Os nossos criadores me falam que, mesmo que eu alerte para a preservação, ter cuidado com a natureza, os brancos continuaram a destruir as florestas e os animais, as aves. Nós indígenas temos que sobreviver. Nós vamos continuar resistindo e existindo. Os donos dos rios me dizem que vai ter enchentes grandes, se continuar com essa ação humana. Vamos ter ventos fortes. A Terra pode ter problemas sérios, a Terra pode não ser mais normal. E os criadores, os donos dessas coisas, eles falam que precisamos de floresta para continuar existindo. Assim os criadores me mostram. Isso não vai ser bom para nós indígenas nem para os brancos. Os espíritos já mostraram isso para mim — finaliza.
Mais do que uma biografia convencional, a obra se configura como um legado de sabedoria ancestral transmitido através de uma abordagem que não separa o tempo presente das origens míticas, e, assim, ele revela toda a complexidade do pensamento originário de seu povo.
Após quase quatro anos de entrevistas de Raoni ao seus netos, os trabalhos de produção e edição do livro ficaram a cargo do antropólogo Fernando Niemeyer, que se apoiou nos estudos etnográficos de colegas de peso como Vanessa Lea e Gustaaf Verswijver sobre os Kayapó para elaborar um glossário, cronologia e mapas que amarram a narrativa com outras informações importantes para o entendimento da obra.
'Memórias do Cacique'
Autor: Raoni Metyktire.
Tradução: Paimu Muapep Trumai Txukarramãe, Patxon Metuktire, Beptuk Metuktire, Bepro Metuktire, Roiti Metuktire, Tàkàktum Metuktire, Tàkàkpe Metuktire, Kremôrô Metuktire, Pati Kayapó, Fernando Niemeyer e João Lucas Moraes Passos.
Editora: Companhia das Letras.
Páginas: 269.
Preço: R$ 89,90/ R$ 39,90 (ebook)