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23/09/21 às 20:43 / Atualizada: 23/09/21 às 20:53

Incêndio criminoso destrói mais de 500 hectares de floresta nativa no assentamento Bordolândia

Grilagem de terras é a causa do fogo; área destruída no assentamento em Mato Grosso era usada por grupo da Rede de Sementes do Xingu para coletar sementes nativas

Ludmilla Balduino Da Rede de Sementes do Xingu

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Incêndio criminoso destrói mais de 500 hectares de floresta nativa no assentamento Bordolândia

Fernando dos Reis, coletor do PDS Bordolândia, combate o incêndio com equipe de brigadistas voluntários

Foto: Ludmilla Balduino Da Rede de Sementes do Xingu

Um incêndio criminoso de larga proporção vem destruindo uma grande área de floresta comunitária do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Bordolândia, no nordeste do Mato Grosso, desde o último domingo (19). O incêndio foi causado por focos gerados por grileiros de terra, que invadiram a área de preservação do assentamento e aproveitaram a estação seca para botar fogo na vegetação. Até o momento, estima-se que mais de 500 hectares de vegetação nativa de Cerrado foram queimados na região.

Os focos de incêndio, localizados em alguns pontos da reserva, encontraram-se e formaram uma grande coluna de fogo que avançou em direção aos lotes dos assentados. Felizmente, parte dessa coluna foi desviada das casas dos agricultores familiares – alguns deles, coletores da Rede de Sementes do Xingu – por conta da mudança da direção do vento.

Outra parte do fogo foi apagada por uma equipe de cerca de 50 brigadistas voluntários, moradores do assentamento, que revezam-se em turmas menores e dividem-se pelas áreas atingidas. Apesar dos esforços em conter as chamas, os grileiros continuam gerando novos incêndios, e a situação não deve ficar diferente enquanto as chuvas não chegarem. Há previsão de chuvas na região para esta quinta-feira (23).

De acordo com Rone César Borges, presidente da Associação Agroecológica Caminho da Paz (Acampaz) e também coletor da Rede de Sementes do Xingu, o objetivo dos criminosos é desmatar o mais rápido possível para invadir as terras recém-degradadas. “Eles provocam as queimadas e não se importam que elas saiam do controle. Depois de botar fogo, saem dali e esperam a primeira chuva da primavera cair. Cerca de 10 dias depois da chuva, o capim rebrota, e eles entram naquela área com o gado. Tudo com o objetivo de grilar a terra que não é deles, e sim do PDS Bordolândia”, conta.

Eliane Righi, elo entre os coletores do grupo do PDS Bordolândia, diz que os incêndios na região são recorrentes, apesar de não terem acontecido em 2020. “Quando a gente se mudou para cá, fomos avisados sobre os incêndios, que acontecem praticamente todo ano. Este ano, o pessoal já estava prevenindo, porque ouvimos comentários sobre tratores entrando na reserva comunitária. Então eles cortam as árvores para vender ilegalmente e depois colocam o fogo criminoso. Para nós, resta defender para que as chamas não cheguem aqui nos nossos lotes”, comenta a coletora e agricultora familiar.

Existe na região uma equipe formada pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), do Ibama. Essa equipe ficou no PDS Bordolândia até o ano passado, quando foram transferidos para o Território Indígena (TI) Marãiwatsédé, onde os incêndios são ainda mais recorrentes.

No momento, os brigadistas voluntários que trabalham para conter as chamas no PDS Bordolândia estão trabalhando com pouca estrutura e um número limitado de equipamentos de proteção individual (EPIs).

Reserva incendiada era área de coleta de sementes nativas

De acordo com Rone, milhares de matrizes – árvores que estão no ápice da produção de sementes nativas de qualidade – foram mortas nos incêndios que têm atingido a região desde o último domingo (19) e cujo fogo ainda não foi controlado. No momento, as chamas seguem no sentido da cidade de Nova Serra Dourada (MT), que fica a cerca de 10 quilômetros do assentamento.

“Estamos perdendo vários pontos de coleta. Vamos ter prejuízo esse ano. Estávamos no final da coleta de mutamba, monjoleiro, ipês amarelo, verde, branco, roxo… Essas e outras espécies”, contabiliza Rone. Ainda não se sabe o número exato das matrizes perdidas.

Em meio a todo o estrago, Rone – que compõe a brigada voluntária – conseguiu salvar uma matriz jovem de canzileiro ainda repleta de sementes.

Incêndios criminosos são comuns no Xingu-Araguaia nesta época do ano

Mesmo com os títulos de suas terras garantidos – inclusive sobre a reserva comunitária, cuja área é repartida entre as 601 famílias de assentados do PDS Bordolândia, a grilagem de terras é comum no assentamento, vizinho de Marãiwatsédé.

Toda a região é marcada por conflitos históricos de terra pelo menos desde a época da ditadura militar, quando os indígenas Xavante que habitavam a região foram retirados à força do local e transferidos para outro lugar do Mato Grosso.

O povo Xavante ficou 40 anos impossibilitado de voltar para casa. Na época, um grande proprietário rural desmatou milhares de hectares para plantar monocultura. Quando os indígenas voltaram, depois de um longo período vivendo como refugiados em beiras de estradas, encontraram uma grande área desmatada, e outra grande área tinha virado uma vila.

Marãiwatsédé é uma das terras indígenas com vegetação mais degradada do Brasil, uma realidade que os indígenas querem transformar. Dentre as ações protagonizadas pelos povos indígenas para defender e recuperar a mata sagrada, está o grupo , formado por mais de 90 mulheres coletoras de sementes nativas da Rede de Sementes do Xingu.

Já o PDS Bordolândia, com pouco mais de 56 mil hectares, surgiu em 22 de outubro de 2007, e também é fruto da resistência campesina na região. Os povos indígenas e agricultores familiares são constantemente ameaçados por posseiros e também pelo estado, que protege tanto os grileiros quanto as oligarquias fundiárias, ambos interessados em destruir a biodiversidade para instituir a monocultura de ideias e de commodities.

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