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14/01/23 às 13:56

Ciência, democracia e revolução

Em 1976 o Brasil produzia 46,9 milhões de toneladas de grãos em 37,31 milhões de hectares, 1.258 quilos por hectare. Para esta safra a previsão é de que sejam colhidas 310,9 milhões de toneladas em 77 milhões de hectares, 4.037 quilos por hectare, de acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Em quase 50 anos, o país aumentou seis vezes a produção e duas vezes a área cultivada. Com isso, o Brasil triplicou sua produtividade.

Sabe como tudo isso foi feito? Com ciência, pesquisa, investimento público e privado e, claro, dedicação de pesquisadores e pesquisadoras, lideranças políticas e dos produtores e produtoras rurais espalhados em todas as regiões brasileiras.

Recentemente, um dos mais importantes cientistas brasileiros se aposentou, aos 92 anos de idade. Eliseu Roberto de Andrade Alves anunciou seu afastamento após 50 anos de dedicação à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Exatamente os mesmos 50 anos que representaram a revolução do agro brasileiro.

Presente desde a primeira diretoria-executiva, Eliseu Alves deixa como legado o modelo de pesquisa com base nos produtos e características de cada região, o que permitiu que a Embrapa diversificasse sua atuação científica, viabilizando o desenvolvimento regional.

Foi por essa perspectiva, também, que Alves promoveu pesquisas em rede, agrupando pesquisadores da Embrapa com cientistas das universidades e órgãos de pesquisa regionais a fim de chegar até a ponta, o produtor rural. Um dos grandes desafios da Embrapa, segundo Alves disse em seu discurso de despedida, é garantir mais competitividade aos pequenos produtores, que compram insumos mais caros e vendem seus produtos mais baratos que os pequenos produtores.

Apesar das dificuldades que o órgão enfrenta para manter a pesquisa em campo, em todas as regiões desse imenso país, Eliseu Alves garante que a Embrapa é um sucesso, pois transformou um país até então importador de alimentos em uma potencial mundial, que abastece mais de 150 países e ainda tem no campo uma das principais atividade econômicas.

Voltando lá no começo do texto, os números comprovam o que Alves fez questão de destacar. Ciência e pesquisa fizeram do Brasil um grande produtor, democratizaram o acesso à tecnologia e fizeram com que produtores e produtoras superassem os desafios naturais de cada região. Isso, em essência, significa segurança alimentar.

Assim como Eliseu Alves, nosso país tem outras tantas personalidades, pessoas que uniram trabalho e estudo para inovar e levar tecnologia ao campo, inclusive na iniciativa privada. Ney Bittencourt de Araújo, por exemplo, foi uma dessas cabeças pensantes que fizeram diferença no agro. Engenheiro agrônomo e administrador de formação, esteve à frente do grupo Agroceres entre 1971 e 1996. Foi reconhecido por grandes personalidades, como Roberto Rodrigues – que merece um texto à parte – que dedicou um livro à trajetória de Bittencourt.

Foi Bittencourt, por exemplo, que trouxe o conceito de agronegócio para o Brasil, que engloba desde a produção até o varejo. Ele entendia que a agropecuária era o elo de uma cadeia que movia a ciência, a tecnologia e a indústria.

Ainda temos a história do imigrante japonês Shunji Nishimura, fundador do grupo Jacto e responsável por dar ao Brasil os créditos pelo desenvolvimento de máquinas inovadoras e únicas até hoje no mercado. A partir do conserto de peças agrícolas, ele desenvolvia soluções inovadoras, como a primeira colhedora de café, entre outras inúmeras tecnologias.

O agro brasileiro não pode, em hipótese nenhuma, ter sua imagem maculada por atitudes de uma parte que não representa o todo. O agro brasileiro é muito maior que partidos políticos, é ciência, porque tem pesquisa como base. É democrático, pois está em todos os cantos e é conduzido por pessoas com histórias, ideologias e ideais diferentes. E é revolucionário, pois é de lá que vem a transformação de um país de subsistência em uma nação desenvolvida.
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