Artigos / Juacy da Silva

17/05/26 às 15:21

DIA INTERNACIONAL DA RECICLAGEM

Reciclar é preciso, é importante, mas para melhorar o nosso cuidado com o meio ambiente, com a ecologia integral, com o planeta, Nossa “Casa Comum”, só isso não basta; é preciso ir mais a fundo, mudar radicalmente os sistemas produtivos/modelos econômicos que estimulam, em busca do lucro, um consumismo e desperdício exagerado. É preciso também despertar a consciência ecológica nos consumidores para que mudem seus hábitos e estilos de vida tão perniciosos ao planeta.

Assim, os Dias internacionais, mundiais e nacionais de “lixo zero”, da reciclagem, da sbrecarga de plásticos ou sobrecarga da terra, da economia circular ou dia internacional da circularidade, o Dia mundial do meio ambiente, Dia Internacional do Desperdício Zero de alimentos, enfim, todos esses momentos são importantes para difundir alertas sobre a importância de um melhor cuidado com o Planeta, se desejamos reduzir os impactos/consequencias da crise climática.

O DIA INTERNACIONAL DA RECICLAGEM, que é celebrado em diversos países, inclusive no Brasil, em 17 de Maio anualmente, foi instituído pela UNESCO com o objetivo de conscientizar governos, empresas e a sociedade sobre a importância do descarte correto dos resíduos sólidos. A data serve para refletir sobre o impacto do consumismo, do desperdício e da forma como os sistemas produtivos, principalmente a indústria tem se comportado. 

A conscientização global por trás da data ganhou força nas décadas anteriores, principalmente após a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano em 1972, que destacou a necessidade urgente de proteger o planeta. A prática é essencial para garantir a circularidade dos materiais, reduzindo o volume de lixo nos aterros e a emissão de gases do efeito estufa que contribuem para a crise climática.

A questão da reciclagem nos remete a diversos outros aspectos que antecedem a produção dos vários tipos de resíduos orgânicos,  que comummente denominamos de ‘lixo”, mas que na verdade, boa parte do mesmo tem um grande potencial econômico e financeiro, mas não é levado em consideração pela imensa maioria da população e das empresas e governos no mundo todo, inclusive no Brasil.

Para entendermos melhor esta questão e dar a direção correta precisamos combater o consumismo, ou seja, a voracidade em comprar produtos além da capacidade ou necessidade.

O conceito de consumismo enfatiza que esta compulsão decorre, em boa parte, pelo marketing dos sistemas produtivos ao estimularem até mesmo aspectos psicológicos das pessoas, dos consumidores e induzirem os mesmas a adquir além das necessidades ou das condições financeiras, gerando o super endividamento, como tem acontecido ultimamente no Brasil e no mundo.

Vejamos, então o conceito “consumismo é o hábito de comprar bens ou serviços de forma exagerada e sem necessidade real. Ele vai além do ato básico de consumir por sobrevivência, transformando a aquisição de produtos supérfluos em uma fonte de prazer, status ou aceitação social

Se desejamos combater o aumento da geração de lixo pelos países e também o aumento desta produção por habitante (produção per capita) que ao longo das últimas seis décadas tem aumentado muito acima do crescimento da população e do aumento da renda nacional dos países e da renda per capita, precisamos entender bem as engrenagens sociais, culturais, políticas e econômicas que fazem parte desta cadeia do lixo.

Ao lado do CONSUMISMO surge o desperdício de todos os bens que a população adquire, como desperdício de alimentos, de energia, de água, de roupa/vestuário, de materiais de construção e todo este desperdício vai parar nas ruas, nas “bocas de lobo”,  em terrenos desocupados/baldios, nos quintais, nos córregos, nos rios e, finalmente, nos mares e oceanos.

O que causa maior tristeza nesta engrenagem é vermos que enquanto  no mundo são desperdiçadas mais de 1,1 bilhão de toneladas de alimentos que são jogadas no lixo anualmente, volume este que representa aproximadamente um quinto (20%) de toda a comida produzida globalmente, o que equivale a mais de 1 bilhão de refeições sendo desperdiçadas diariamente, ao mesmo tempo mais de 700 milhões de pessoas estão passando fome e  com estimativas de que cerca de 9 milhões de pessoas morram de fome ou por desnutrição grave no mundo a cada ano. 

Outro problema grave nesta cadeia do consumismo, desperdício, geração de lixo e falta do tratamento adequado e correto do mesmo, é a questão dos plásticos. Atualmente o maior desafio que o mundo enfrenta, tendo em vista a resistência de setores econômicos poderosos como a indústira do petróleo e seus derivados, onde está incluinda  também a famigerada indústria dos plásticos, que está no centro dos problemas ambientais mais graves que temos e que precisam ser enfrentados com seriedade.

Em 2020 o mundo produziu 460 milhões de toneladas de lixo em geral e deste volume em torno de 353 mihões de toneladas foram de plásticos, representando 76,7% de todo o lixo produzido no mundo.

De outro lado, os dez países que mais produzem lixo plástico, área em que o Brasil ocupa o 4º lugar, produziram 204,1 milhões de toneladas, represeentando 60% de todo o lixo plástico produzido no mundo.

Globalmente, a taxa de reciclagem e compostagem de resíduos sólidos urbanos gira em torno de 19%. No entanto, considerando toda a economia global (incluindo materiais industriais e de construção), a taxa de circularidade é de apenas 6,9%. O volume total de lixo produzido no mundo vem crescendo exponencialmente.

Do volume total de lixo plástico produzido no mundo, anualmente, apenas 9% é reciclado, o restante acaba em aterros saniários ou simplesmente abandonados como anteriormente mencionado, produzindo degradação ambiental do solo, das águas e dos espaços públicos.

O Brasil produz 11,4 milhões de toneladas de lixo plástico por ano, em torno de 52,5 kg por ano e recicla apenas 1% deste total, razão pela qual diversos problemas tem surgido e diante do descaso do sistema produtivo, da inústria de plástico em geral, de nossos governantes que simplesmente tem falhado em definir regras mais efetivas em relação `a logística reversa para o setor de plásticos os hábitos consumistas, de desperdício e falta de cuidado com este problema, a coleta seletiva e a reciclagem em nossas cidades estão longe de serem solucionadas.

Em torno de 40% das  cidades brasileiras não tem coleta seletiva e nem uma política de reciclagem, incluindo cidades de porte médio e grande como Cuiabá e Varzea Grande, o maior aglomerado urbano de Mato Grosso, com mais de um milhão de habitantes.
 
Em pesquisa sobre reciclagem nos centros urbanos do Brasil o IBGE ao publicar os resultados da mesma alertou que “A coleta seletiva no Brasil é regulamentada por diversos instrumentos legais que visam a correta gestão de resíduos sólidos e a promoção da sustentabilidade. Um dos principais marcos é a Lei 12.305, de 02/08/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Essa legislação estabelece diretrizes importantes para a implementação da coleta seletiva nos municípios, determinando que os resíduos devem ser separados em categorias como recicláveis, orgânicos e rejeitos, a fim de facilitar sua destinação adequada”.

Todavia, apesas da existência de legislação federal, a omissão de autoridades municipais e também dos organismos de controle, a realidade brasileira em relação `a questão do lixo em geral, do lixo plástico e da reciclagem, enfim, da economia circular ainda está longe de demonstrar que o país cuida do meio ambiente corretamente.

Esses são alguns desafios que deveriam estar sendo debatidos tanto em foruns especiais relacionados com o assunto quanto ser incluido na pauta da discussão política, principalmente neste momento em que o Brasil está iniciando seu processo eleitoral, da mesma forma que precisa ser debatido  por entidades ambientalistas não governamentais e pelos diversos movimentos sociais e comunitários.

A ONU, em 2015, estabeleceu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS),  entre os quais o ODS 12 – Consumo de Produção Responsáveis, visa garantir padrões sustentáveis em toda a cadeia produtiva, estabelecendo 11 metas principais para reduzir o desperdício, gerenciar recursos naturais e promover o desenvolvimento sustentável. 

Entre essas metas estão: gestão correta de resíduos sólidos, incluindo reciclagem, redução do consumo, reuso de produtos e um menor impacto sobre a natureza e os recursos naturais; gestão dos produtos quimicos que afetam o meio ambiente, como agrotóxicos e outros produtos nocivos também a saúde humana e animal; responsabilidade corporativa por parte dos sistemas produtivos, incluindo a logística reversa, já implantada para alguns setores mas ainda longe de ser realidade em  relação aos plásticos; definição de políticas públicas e programas, principalmente em nível local (prefeituras), visando reduzir os impactos negativos do lixo no meio ambiente; programas de educação ambiental,  visando o despertar da consciência ecológica nos consumidores em geral.

Esses são alguns aspectos que devem estar presentes quando, por exemplo, neste Dia Internacional da Reciclagem.
Juacy da Silva

Juacy da Silva

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso, sociólogo, ambientalista e articulador da Pastoral da Ecologia integral Região Centro Oeste. Email: profjuacy@yahoo.com.br | Instagram: @profjuacy
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  • por Osvaldo Valente Filho, em 17/05/26 às 23:08

    Este exagero consumista se aplica em muitas situações do nosso dia dia. Queremos mostrar aparências que sao falsas realidades. Preparemos nossos filhos e netos para caírem na real. Conversão social e ambiental para a sobrevida digna da vida neste planeta, do qual deveríamos ser guardiões e não devastadores.

 
 
 
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