Artigos / Soraya Medeiros

10/11/25 às 20:52

O fogo silencioso do recomeço!

Eu olho para o espelho, e a imagem que me devolve não é de uma heroína, nem de alguém que escalou montanhas ou fez grandes discursos. É só a minha — a mesma de sempre — um pouco mais marcada pelo tempo, talvez com um brilho recém-acendido nos olhos.

Não tenho feito nada demais — apenas o que sempre soube fazer de melhor: renascer de mim mesma.

Renascer das cinzas, sim. Daquelas cinzas que se acumulam depois de um incêndio — seja ele provocado por dores antigas, por ausências gritantes, ou por toda a sorte de coisas que, com uma insistência quase sádica, tentaram me apagar.

Tenho vivido dias de uma tarefa laboriosa — e, confesso, um tanto solitária —: a de me refazer, de me reconstruir com as próprias mãos. É um trabalho de ourives, em que cada pedacinho quebrado é lixado, polido e transformado em algo novo. As feridas, aquelas que antes me faziam mancar, estão virando... bem, estão virando asas.

E a analogia da Fênix — que de tão clichê se tornou quase um insulto — nunca fez tanto sentido. Eu volto a me erguer em chamas, mas não para fazer um show para a plateia.

Não tenho de provar nada ao mundo lá fora, que mal se importa com os meus escombros.
Eu me levanto para lembrar a mim mesma que sou feita de fogo e de luz.

Que, por mais que o tempo e as quedas tentem me consumir — e olha, como tentaram! — há dentro de mim uma força silenciosa, teimosa, que insiste em recomeçar. É o motor de partida que sempre funciona, mesmo quando a bateria parece zerar.

E o que me encanta — o que me faz parar e rir da minha própria sorte — é o quão curiosa é essa força. Porque, mesmo depois de tanto, ainda encontro espaço para o amor.

Mesmo depois das tempestades — aquelas que fizeram o chão tremer e o telhado voar — o coração insiste em bater. E bate bonito, sabe? Cheio de fé, cheio de ternura. Ele não se tornou uma pedra fria, como eu pensei que se tornaria.

Talvez seja isso, no final das contas, o milagre da vida — o verdadeiro ato de bravura: continuar amando, mesmo depois de tudo. Amar a si, amar o dia que chega, amar a xícara de café quente, amar as lembranças doces e, sim, amar a promessa de um novo afeto.

Não, eu não tenho feito nada demais. Estou apenas voltando a ser quem sempre fui — alguém que não desiste, que renasce, que acredita. Alguém que entende que o fogo que queima e incinera também pode aquecer e iluminar. E que, no fundo, todo recomeço é um ato de amor: por mim, pela vida e... por você também, que de alguma forma esteve (ou está) no meu horizonte.

Porque renascer é isso: olhar para as próprias cinzas e, em vez de ver o fim, enxergar nelas a promessa de um novo voo. E a certeza serena de que, desta vez, o meu vai ser ainda mais bonito.
Soraya Medeiros

Soraya Medeiros

*Soraya Medeiros é jornalista com mais de 23 anos de experiência, possui pós-graduação em MBA em Gestão de Marketing. Além de sua sólida trajetória no jornalismo, é formada em Gastronomia e certificada como sommelier, trazendo uma combinação única de habilidades em comunicação, marketing e enogastronomia.
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  • por Janaina Lenza, em 18/11/25 às 02:41

    Nossa!!! Como me identifiquei com está artigo !!!

 
 
 
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