Artigos / Eduardo Gomes

15/01/24 às 09:39

De primeiro tiro

Mais dia menos dia Mato Grosso criaria uma política sanitária animal para erradicar a febre aftosa, a doença com forte apelo econômico que fechava as portas do mercado internacional para sua carne bovina. Só que ninguém apostava quando, porque a questão da aftosa era tabu, pelo temor que esse tema causasse prejuízo aos pecuaristas, senhores da economia regional. Mesmo com minha modesta participação no jornalismo ao longo de décadas, Deus permitiu que um conjunto de textos de minha autoria fosse decisivo para a antecipação do enfrentamento do abafado e debaixo do tapete mundo da epizootia, que roubava o sono dos donos das boiadas, sem que a prática de derramar querosene no cangote resolvesse o problema. 
 
O ano era 1994. Rondonópolis elétrica com a convergência de interesses que faria o casamento da pecuária do Jurigue com os gaúchos que chegaram para transformar o cerrado menosprezado em pilar da política de segurança alimentar mundial. O casório seria no Parque de Exposições Governador Wilmar Peres de Farias, que pouco antes foi idealizado por Zeca de Ávila, que à frente do Sindicato Rural de Rondonópolis liderou sua construção. Tudo pronto para a grande feira agropecuária, que entre os expositores de nelore teria o doutor Adib Jatene e o ator Tarcísio Meira. A elite nelorista nacional era esperada na exposição. O que não se esperava era a aftosa. 
 
Meu relacionamento com o pessoal local do Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) era bom. Respondia pela Sucursal do Diário de Cuiabá e não economizava espaço para a economia rural, à época com predominância da pecuária. Ouvi em off que havia focos de aftosa ao lado da cerca do parque de exposições em Rondonópolis. Apurei o fato. Fotografei animais afetados. Tentei ouvir o Sindicato Rural, mas a prepotência de sua cúpula quis desqualificar meu trabalho. À época a Comunicação não tinha as ferramentas de agora. Enviei para o Jornal um filme P&B com as fotos, por um estafeta embarcado num ônibus da Viação Motta. No dia seguinte, Mato Grosso tomou conhecimento da gravidade da situação. 
 
Foi um chororô danado, apimentado por pressões políticas. Em Rondonópolis a chaleira ferveu. Numa reunião no Sindicato Rural com as presenças de Aréssio Paquer (secretário de Agricultura) e Paulo Bilego (presidente do Indea), os pecuaristas tomaram pé da situação. Enquanto isso, em Cuiabá, a superintendente do Ministério da Agricultura, Alzira Catunda, alertava que poderia suspender a exposição. A doutora Alzira Catunda era contrária à realização da feira. Porém, Aréssio Paquer a liberou, mas com restrições: sem a realização da tradicional cavalgada de abertura, sem leilões a campo, com a instalação de um pedilúvio e reforço de vacinação contra a aftosa.
 
Fui satanizado pelos donos das calças onde o lucro com as feiras agropecuárias é guardado. Porém, o governador Jayme Campos antecipou a entrada de Mato Grosso na luta contra a aftosa. Assim, pouco tempo depois nasceu o Fundo Emergencial da Febre Aftosa (Fefa), que foi o braço direito no enfrentamento da doença. O Fefa era controlado pela Federação da Agricultura (agora, também da Pecuária)/Famato, entidade que era presidida por Zeca de Ávila. 
 
A aftosa permanece ameaça, mas é coisa do passado. Não falarei das pressões sofridas, para não criar um cenário de vitimismo. O importante é o resultado. Reconheço que o pecuarista foi o grande responsável pela vitórias sobre aquela doença, e de igual modo entendo que a liderança da luta foi decisiva para essa vitória da economia mato-grossense, que teve à frente, dentre outros, Jayme Campos, Zeca de Ávila, Homero Alves Pereira, Maurício Tonhá, Luiz Carlos Meister, Paulo Garcia Nanô, Zelito Dorileo, Alzira Catunda, Osvaldo Roberto Sobrinho, Luiz Elias Abdala, Ênio Arruda, Décio Coutinho, Antônio Luiz de Castro, José Lino (Cabeção), Édson Rodrigues de Andrade, Fernando Nascimento Tulha Filho, José Almir da Silva, Luiz Antônio de Freitas, Kleiber Leite Pereira, João Batista Ferreira Borges, Fátima Roriz, Jorge Pires de Miranda, Wolfgang Dankmar Gunther Bonfim de Souza, Mário Cândia, Manoel Paulino, Argeu Fogliatto, Monica Marchett, Romão Flor, Vasco Arantes Mil Homens, Alceu Magnon, Mário Bagini, Américo Alves Pereira, Pedro Paulo de Andrade, Luiz Antônio Felippe, Antônio Flor, Wilmar Peres de Farias, Carlito Guimarães, José Rezende, Terezinha Souza Maggi, José Wellington Gomes da Silva, Afrânio Santana, Pedro Paulo de Andrade, Zé da Guará, Antônio Cabrera Mano Filho, José de Souza Filho, Hélio Cavalcante Garcia, Jorge Eduardo Raposo, Pedro Bonetti e Francis Maris Cruz. No quase anonimato de minha modesta participação na Imprensa, comemoro a data. Imagino como seria extraordinário se todos os jornalistas mato-grossenses tivessem no currículo uma página de tamanha relevância quanto essa. Creio que se assim fosse, Mato Grosso seria um Paraíso na terra. 
 
Independentemente de imaginação e crença, reverencio a data de 16 de janeiro – o dia da vitória sobre a aftosa, numa luta que na solidão da Sucursal do Diário de Cuiabá em Rondonópolis dei o primeiro tiro de conscientização dois anos antes.
Eduardo Gomes

Eduardo Gomes

Eduardo Gomes é jornalista e escritor
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