Artigos / Eduardo Gomes de Andrade

19/11/21 às 08:42

De hora do combate

Pecuária não é profissão. É paixão. Pelo menos para boa parte dos que ganham o pão na cadeia dessa atividade econômica que começa no campo e literalmente avança pelas rodovias até as cidades onde estão os frigoríficos, laticínios e supermercados. Propor redução drástica no rebanho bovino brasileiro por motivação ambiental é procurar briga. Porém, diante do aquecimento global será necessário rearranjo na engenharia produtiva, na esfera comportamental humana e uma travada bem forte no consumo de combustível de origem fóssil.          

O Brasil tem culpa ambiental. O país não se interessa pela mudança da matriz do transporte terrestre urbano e rodoviário, trocando o caminhão pelo trem e retirando de circulação nas cidades o ônibus botando em seu lugar o metrô – inclusive de superfície – e o veículo leve sobre trilhos (VLT), ambos elétricos.      
 
  O país também não assume responsabilidade com a urgência necessária, para substituir as descomunais hidrelétricas por energia solar e eólica, o que convenhamos, é um atentado contra a lógica.        

Chegamos ao curral. Ao boi. O Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) mostra que os mais de 392 milhões de bovinos brasileiros, dos quais 30 milhões mato-grossenses, respondem por 17% das emissões de gás carbônico no Brasil. Num comparativo o SEEG cita que se esse gado fosse país, seria o 17º maior poluidor, à frente da Ucrânia, por exemplo.  
     
Nem tente mostrar isso a algum pecuarista da velha guarda. Porém, o Estado Brasileiro deveria conversar oficialmente com a cadeia pecuária propondo drástica redução do rebanho. Isso implicaria no fortalecimento de outros segmentos pecuários e na mudança parcial dos hábitos alimentares, o que provocaria uma revolução no campo, incluindo o aspecto social, pois o boi está incorporado ao universo da pecuária desde a colonização brasileira.       

O encolhimento do rebanho deveria atingir os animais de terminação, sem prejuízo ao leite, preservando as vacas leiteiras e mantendo matrizes para uma produção menor de bezerros. A terra excedente poderia produzir milho, soja e algodão em rotação de cultura para as granjas integradas, e cana para virar etanol e bioenergia.      

  A questão da pecuária tem que entrar na agenda, mas não somente ela. O governo deve investir nas mudanças da matriz de transporte terrestre e de geração de energia; tem que estancar o derramamento de esgoto nos rios; precisa proibir a exportação de madeira bruta e beneficiada, como parte de uma política de desmatamento zero.  
       
Da porteira pra dentro o boi ainda pastará e reinará por muito tempo. O rodoviarismo sempre descarrila o trem. A geração de energia é sustentada com força – sem trocadilho – por poderosos grupos empresariais. E o esgoto; ora, esgoto não rende voto, como acreditam políticos. Não será fácil, mas está na hora de botar as luvas para esse combate.
Eduardo Gomes de Andrade

Eduardo Gomes de Andrade

Eduardo Gomes de Andrade – Editor do site Boamidia
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