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08/03/17 às 10:48

Taís Araújo: 'Corre no meu sangue a dificuldade da maioria dos brasileiros'

Em entrevista exclusiva ao EGO, atriz fala sobre empoderamento feminino, igualdade racial, filhos e carreira

Laís Gomes, EGO

Edição para o AguaBoaNews, Clodoeste Kassu

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Taís Araújo: 'Corre no meu sangue a dificuldade da maioria dos brasileiros'

Foto: Anderson Barros/EGO

Ela apareceu pela primeira vez na TV em 1995, mas foi no ano seguinte, como Xica da Silva, que caiu nas graças do povo. Desde então, o nome Taís Araújo nunca mais foi esquecido. Fora da telinha ela só ficou quando deu à luz o primeiro filho, João. Até então foram 12 novelas (cinco delas como protagonistas) sete filmes, cinco séries, além de participações.
 
Para muitas meninas, Taís Araújo é considerada uma mulher-maravilha do mundo moderno, mas não daquelas que usa uma capa. Suas armas são as suas palavras, sua postura e sua arte. Seja nas redes sociais, na peça 'O Topo da Montanha' ou na série 'Mr Brau' - na qual contracena com o marido, Lázaro Ramos - ela reforça a importância da representatividade do povo negro.
 
Nessa entrevista exclusiva, concedida ao EGO em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, Taís fala desses assuntos e conta como o nascimento de seus filhos - João Vicente, de 5 anos, e Maria Antônia, de 2 - mudaram a forma de se colocar no mundo.
 
"Fiquei desesperada quando soube que estava gravida de uma mulher, fiquei incomodada e não sabia que medo era esse. E era óbvio que era medo de que ela passasse pelas mesmas coisas que eu passei. E a partir dela eu tomei mais coragem de falar", disse ela, que estreia nesta quarta-feira, 8, no comando da nova temporada do 'Saia Justa', programa comandado por mulheres no canal a cabo GNT. Confira agora a entrevista de Taís Araújo na série 'Mulheres Empoderadas'.
 
A gente tem ouvido muito falar em empoderamento, feminismo e desconstrução. De onde você acha que vem essa força feminina em tentar mudar o mundo?
O mundo foi feito para o homem, ele se sente à vontade porque tem todas as facilidades e a gente não. O mundo sempre foi feito por eles, até porque eles sempre cercearam a gente. Chegamos em um momento superimportante, de ganhar voz e por isso que somos nós que falamos sobre tudo isso. Porque é a gente que ainda tem que galgar alguma coisa, somos nós que estamos atrás de conquista, para eles está tudo confortável.
 
Você é símbolo de mulher empoderada, da luta a favor da igualdade. Quando foi que você percebeu que tinha uma voz, e que essa voz poderia alcançar muitas pessoas?
Duas coisas aconteceram pra que eu tivesse coragem de dar a cara a tapa. Primeiro foi o nascimento da minha filha. Fiquei desesperada quando soube que estava gravida de uma mulher, fiquei incomodada e não sabia que medo era esse. E era óbvio que era medo de que ela passasse pelas mesmas coisas que eu passei. E a partir dela eu tomei mais coragem de falar. Pensei: ‘Bom, estou parindo uma mulher e vou ter que tentar tornar esse mundo mais justo pra ela’. Porque esse mundo que a gente vive não está legal. A partir do nascimento dela tive coragem para falar sem medo. E a segunda coisa foi o caso de injuria racial que foi crucial pra mim. Na verdade, não estou nem aí para o que falaram, meu pensamento é: ‘Essa gente não tem o que fazer’. Só que tenho dois filhos pequenos que terão acesso a essa história. Não dá para deixar passar batido um negócio desse. Estudei a vida inteira em escola particular, meu pai tinha uma condição financeira confortável, minha mãe é médica, falo três línguas. Infelizmente sou uma exceção. E eu vi que a maioria das pessoas, principalmente as meninas, me enxergavam como uma exceção. Com essa história da injúria, aconteceu uma coisa superbonita. A gente se encontrou na mesma dor. Porque não interessa a sua origem, o preconceito está aí pra todos os negros, de todos os tipos de classe social. O preconceito vai mudando de figura, mas ninguém está livre dele. Claro que uma menina de comunidade sofre muito mais que eu, não que eu tenha sofrido. As meninas olharam pra mim e pensaram: ‘Aconteceu com ela também’. E aí tive vontade de começar a falar, vi que as pessoas se encontravam nas minhas palavras. Eu tive oportunidades, mas esse era o meu núcleo familiar, se eu olhasse para o lado meus primos e tios já não tinha. Corre no meu sangue a dificuldade da maioria dos brasileiros. O quanto eu sai fortalecida dessa história, por conta das mulheres negras, me fez mudar e querer falar.
 
Seus filhos são muito novos, têm muita coisa para passar. Isso te dá medo?
Eu gosto de educar. Tenho preguiça de algumas coisas, mas de educar eu tenho prazer. Educação tem a ver como a gente se relaciona. Minha filha é uma menina de 2 anos que já é empoderada. Eu olho para ela e fico assustada. Ainda tento controlar ela um pouco, a gente tem que ficar alerta, até porque não dá para repetir o comportamento do agressor, isso não funciona, a gente tem que descobrir outro caminho. É isso o que eu tento o tempo inteiro. Assim como tento não criar um filho machista. Estamos em tempo de mudança e tenho que ficar alerta o tempo inteiro.
 
Quais foram as mulheres que te inspiraram na sua profissão?
Sempre me incomodava ter só três nomes: Ruth de Souza, Zezé Motta e Léa Garcia. Se você for ver, existe um gap gigantesco entre elas e a minha geração. Na verdade Léa e Ruth já não são da mesma geração.Depois vem Isabel Fillards e Maria Ceiça e só depois a minha geração. Ou seja, de 15 em 15 anos aparece alguém. Óbvio que tem outras, mas elas foram as maiores expoentes. A minha geração já tem mais gente, tem uma mudancinha, mas esse espaço entre gerações é uma loucura.
 
Você vem de uma família de mulheres fortes?
Venho de uma família de mulheres tinhosas. Minha avó morreu com 37 anos, mas ela é uma figura tão forte que vivo até hoje como se ela fosse viva. Minha filha se chama Maria Antônia em homenagem a ela. Minha avó criou cinco filhos sozinha, além dos filhos dos irmãos. A família inteira vive em volta dela sem ela estar aqui. Não existe um dia que ninguém fale da minha avó. Minha mãe fez muita questão de manter a imagem dela viva. Somos uma família de mulheres. Não em número, mas mulheres que tomaram a frente das coisas.
 
Se você pudesse nascer de novo, e pudesse escolher, você gostaria de vir mulher, negra, de novo, ou ia querer vir homem, branco...?
Eu não teria a menor graça se eu não fosse negra. Só queria ter a maturidade que eu tenho hoje com uns 25 anos. Acho as meninas de hoje em dia incríveis. Elas são muito certas e seguras do que querem com essa questão da negritude, do feminismo e eu não era assim.
 
Você tem uma ‘série’ nas suas redes sociais que exalta outras mulheres. Eu acho que falta muito isso hoje em dia, de mulher falar bem de outra mulher, acho que acontece mais o contrário...
Sororidade é uma palavra que está na moda e acho importante as pessoas descobrirem o que é. Saiu uma capa de revista da Raíssa Santana, Miss Brasil, e eu fui vendo que só eu fazia as capas de revistas mais bem conceituadas. Eu digo que isso não tem valor algum, se outras não vierem, não vai acontecer nada com a minha filha. Acho importante essas meninas serem divulgadas. Uma fortalece a outra. Não adianta eu ser a exceção, essa é uma campanha para falar de outras mulheres, para que as revistas coloquem nas capas as meninas que tenham a mesma características que a minha, senão é mais do mesmo.
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