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17/12/16 às 08:02 / Atualizada: 17/12/16 às 08:45

Casal que largou tudo para viajar o mundo de carro volta ao Brasil após 3 anos e meio

Brasileiros que conheceram 78 países e dirigiram 130 mil quilômetros contam experiências da viagem.

Flávia Mantovani, G1

Edição para Água Boa News, Clodoeste Kassu

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Eles têm os números na ponta da lingua: foram 1.317 dias, quase 130 mil quilômetros rodados de carro, 3.158 horas dirigindo, 78 países no roteiro e muitas, muitas histórias para contar. Três anos e 7 meses depois de partirem em uma viagem de carro pelo mundo, o casal Leonardo Spencer, de 32 anos, e Rachel Paganotto, de 30, está de volta ao Brasil.
 
Os dois paulistanos, que em 2013 largaram uma vida confortável e um salário alto no mercado financeiro para viajar – e muitas vezes, dormir - em uma Land Rover, passaram pelos cinco continentes no percurso.

Rachel Paganotto e Leonardo Spencer em Dubai (Foto: Divulgação/Viajo Logo Existo)

Fanáticos por números, colecionaram estatísticas como os dias sem banho (17) ou de banho frio (51), as fotos que tiraram (87 mil), os dias de chinelo (361) e os desarranjos intestinais (33 ela, 18 ele), que foram publicando no site do projeto, chamado Viajo Logo Existo.
 
O balanço, dizem, foi muito positivo. Segundo o casal, o que mais valeu a pena foi a oportunidade de conhecer não só o lado turístico das capitais e grandes cidades, mas também os pequenos municípios que encontravam na estrada.
 
“Foi muito interessante ver os contrastes culturais. Passamos dois meses na Índia, por exemplo, e dormimos em cidadezinhas onde as pessoas nunca tinham visto um ocidental. Passávamos na frente de um casamento e eles imploravam para a gente participar, abraçar os noivos, porque acreditam que ter um estrangeiro na celebração dá sorte”, conta Rachel.



Leonardo e Rachel admiram paisagem na Nova Zelândia (Foto: Divulgação/Viajo Logo Existo)


Entre os países mais diferentes que conheceram, eles citam a Coreia do Norte – onde se surpreenderam ao ver que as pessoas “levam uma vida normal”, apesar de todo o controle de uma das ditaduras mais fechadas do mundo – e a República Democrática do Congo. Nesse ultimo país, tinham que andar escoltados por guardas de metralhadora e colete anti-balas.
 
“Eles sempre tinham que avisar onde íamos, chamar por rádio para ver se era seguro”, lembra Leonardo. “Mas foi lindo ver os gorilas da montanha. Também escalamos um vulcão e vimos o maior lago de lava do mundo. Nunca vimos algo assim tão diferente. Foi surreal”, descreve.
 
Austrália e Portugal foram os países onde mais deu vontade de ficar para sempre. Já o Zimbábue e a Sérvia não encantaram.
 
Surpresas boas e ruins
 
A viagem teve também seus apertos. Eles foram roubados no Chile, por exemplo, por golpistas que levaram seus equipamentos de fotografia enquanto eles trocavam o pneu do carro, que tinha sido furado de propósito. No México, tiveram uma arma apontada para eles, devido a um mal-entendido com policiais comunitários.
 
Na Índia, foram obrigados a passar 10 dias em uma cidade sem nenhuma estrutura, em um hotel com ratos, enquanto esperavam o carro ser consertado.
 
Mas nunca pensaram em interromper a viagem antes da hora. “Tinha momentos em que a gente se cansava de todo dia estar em um lugar diferente, comer uma coisa diferente, não saber se ia ter banho quente. Mas aí parávamos mais tempo em algum hotelzinho para descansar. A gente sentia saudade, mas nunca chegamos a pensar em voltar”, diz Rachel.

O casal na Grande Barreira de Corais, na Austrália (Foto: Divulgação/Viajo logo existo)

A hospedagem foi parte na casa de moradores locais, parte acampando no próprio carro e, por fim, algumas noites em hotéis, hostels ou casas alugadas.
 
O fato de serem do Brasil abriu portas, e eles dizem que foram muito bem recebidos e não tiveram nenhum problema em fronteiras.
 
O orçamento também passou pouco do que eles tinham estipulado no início da viagem: a previsão era US$ 100, e eles gastaram uma média de US$ 108 por dia, contando comida, hospedagem, combustível, passagens aéreas, gorjetas e todos os outros gastos.
 
As viagens também renderam livros, lançados por meio de financiamento coletivo: um sobre a América, outro sobre a Europa, outro sobre a África e, por fim, um quarto sobre a Ásia e a Oceania, que eles pretendem lançar em fevereiro de 2017.
 
Agora, os planos de Rachel e Leonardo são matar a saudade dos amigos e da família, e rodar o Brasil fazendo palestras sobre a viagem. Ainda não sabem como farão para retornar ao mercado de trabalho, mas uma coisa eles garantem: vão continuar viajando, mesmo que em um esquema "mais normal", com fugidas de de 20 ou 30 dias, para sair da rotina.


Leia a reportagem abaixo do início da viagem

 
Casal brasileiro larga tudo para viajar o mundo de carro por 3 anos e meio

Após se demitirem de banco, eles dão volta ao mundo em uma Land Rover.
Plano é percorrer 192 mil km por 70 países de 5 continentes.
 
Flávia MantovaniDo G1, em São Paulo
 
Leonardo Spencer e Rachel Paganotto na viagem pela América do Sul (Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)Leonardo Spencer e Rachel Paganotto em uma das paradas da viagem, na América do Sul (Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)
 
Eles estão viajando há três meses e meio, rodaram mais de 22 mil quilômetros e conheceram cinco países. Parece muito, mas Leonardo Spencer, de 29 anos, e Rachel Paganotto, de 27, ainda têm um longo caminho pela frente.

O casal partiu no dia 4 de maio para uma viagem pelo mundo que está prevista para durar 42 meses. Nesses três anos e meio, eles pretendem dirigir por cerca de 190 mil quilômetros e conhecer 70 países.

 
Leonardo Spencer e Rachel Paganotto na viagem pela América do Sul (Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)Leonardo e Rachel (Foto: Leonardo
Spencer/Arquivo pessoal)
Para fazer essa aventura, Leonardo e Rachel largaram um emprego de oito anos no mercado financeiro, salários altos e a vida confortável que levavam em São Paulo.

Se antes eles moravam em um apartamento de três quartos no bairro da Vila Madalena, hoje dividem um espaço de 5 m²: a Land Rover onde viajam e dormem, que tem uma barraca acoplada.

Os dois, que até pouco tempo atrás não faziam percursos de carro mais longos do que de São Paulo até o litoral paulista, contam que sempre gostaram de viajar, mas nunca tiveram o perfil de mochileiros. Ela nunca havia acampado antes, e ele tinha vivido essa experiência poucas vezes.
 
Rachel na escada que dá acesso à barraca acoplada ao carro (Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)Rachel na escada que dá acesso à barraca
acoplada ao carro
(Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)
A ideia da viagem surgiu há um ano, após visitarem a exposição de fotos de um amigo que havia dado a volta ao mundo de bicicleta. “Vimos que dava pra fazer aquilo de carro, e começamos a pensar o que queríamos da nossa vida. Estávamos acomodados e queríamos sentir mais frio na barriga. Tínhamos uma grana guardada e vimos que quanto mais tempo demorássemos, mais acomodados ficaríamos”, explica Rachel.

No início, a reação da família, dos colegas de trabalho e dos amigos foi de surpresa. “Todo mundo questionou muito. As pessoas falavam: ‘Vocês estão malucos? Como vão viver no carro? Vão jogar tudo para o alto?’ Foi todo um processo”, diz Leonardo.

Roteiro

A rota planejada começa pela América do Sul e sobe até os Estados Unidos, visitando os países da América Central. Em seguida, cruzam o oceano em direção à Europa, de lá vão para África, para a Ásia e para a Oceania.
 
Leonardo Spencer e Rachel Paganotto na viagem pela América do Sul (Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)Leonardo e Rachel em uma das paradas
(Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)
A ideia é ficar ao menos uma semana em cada país, mesmo em países bem pequenos.
“A gente poderia dar uma volta ao mundo em um ano dirigindo mil quilômetros por dia, mas queríamos aproveitar mais. Só na Austrália pretendemos ficar cinco meses”, diz Rachel.
O roteiro tem uma certa flexibilidade, mas o casal estabeleceu algumas metas: por exemplo, estar no verão na Europa e chegar à região do Serengeti, na África, na época da migração dos animais.
Eles rodam, em média, 250 km por dia. O carro foi batizado de Coyote, em uma menção ao personagem de desenho animado que perseguia o Papaléguas. “Ele vai devagar, mas nunca desiste”, brinca Leonardo.
 
Ele acrescenta que o veículo tem uma estrutura que permite “viver por dois ou três dias longe da civilização”, que inclui, além da barraca, armário, geladeira, fogão e tanque de água.

Quando não há camping onde eles podem parar, Rachel e Leonardo ficam em hotéis baratos – um deles era tão ruim que ela teve que dormir com várias calças e blusas, gorro, luva, meias térmicas e edredom, para aguentar o frio de - 5°C que o quarto não vedava.

Costumam cozinhar, mas fazem questão de ir a restaurantes de chefs conhecidos, já que gostam de gastronomia.

Os vídeos e as fotos da viagem são de autoria de Leonardo, que é fotógrafo amador. Eles postam algumas delas em seu site Viajo, Logo Existo, e na sua página no Facebook, que tem mais de 18 mil seguidores.

186 barras de cereal, 6 dias sem banho

Quando pediram demissão do banco, Rachel e Leonardo largaram as planilhas para trás,  mas a mania de mexer com números não os abandonou. Ao longo da viagem, eles registram tudo: quilômetros rodados, diesel consumido, o clima em cada lugar, o número de fotos tiradas.
 
Enfrentando a neve no caminho (Foto: Leonardo Spencer/Arquivo pessoal)Enfrentando a neve no caminho (Foto: Leonardo
Spencer/Arquivo pessoal)
As estatísticas incluem até os dias sem tomar banho (seis, até agora), as refeições gratuitas (nove), as barras de cereal consumidas (186) e os desentendimentos entre os dois. Eles registraram cinco “desarranjos”, mas zero “briga séria”. Juntos há três anos e casados desde abril deste ano, os dois dizem que tentam evitar ao máximo os atritos despertados pela convivência tão frequente.

“Quando dirigimos o dia todo, sem comer direito, a chance de discutirmos à noite é grande. Mas tentamos levar tudo pelo bom humor. Sem uma pessoa em quem você confie, que te ajude, a viagem perde o brilho”, diz Leonardo.

O planejamento financeiro também é levado a sério. Já antes de sair do Brasil, eles haviam despendido R$ 164 mil com os preparativos, incluindo a compra do carro. Ao longo do percurso, todos os gastos são registrados, para evitar sair do previsto -- que era de US$ 100 por dia, mas já foi reajustado para US$ 95, devido à alta do dólar.

 
Estatísticas da viagem até agora:
- 22.307 km rodados
- 2.410 litros de diesel gastos
- 5 países visitados
- 9.434 fotos tiradas
- 186 barras de cereais consumidas
- 6 dias sem tomar banho
- 62 dias ensolarados
 
A viagem já teve seus momentos difíceis. Em uma praia no Chile, eles foram vítimas de um golpe.
Ladrões furaram o pneu do carro e, enquanto eles se entretinham trocando-o, tiveram uma mochila roubada, contendo equipamentos fotográficos no valor de US$ 9 mil.

Como haviam feito seguro, recuperaram algumas coisas, mas tiveram um prejuízo de US$ 2 mil e passaram a tarde toda na delegacia de polícia. 

Apesar de tudo, fica a sensação de que tomaram a decisão certa. “Aprendemos em três meses coisas que levaríamos anos para aprender. Exercitamos a paciência, a disciplina com os gastos, um olhar de respeito sobre a cultura de cada lugar. Isso não tem preço. Fora que, se expondo a tudo isso, ou a gente volta separado ou não separa mais”, brinca Rachel.

Se depender de Leonardo, a relação ainda vai durar muitos anos: “Vamos poder contar para os nossos netos que demos a volta ao mundo”, afirma.

 
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