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08/12/16 às 16:44

‘Leve-as por 100 bolívares’: o drama das meninas venezuelanas obrigadas a se prostituírem para comer

Pobreza atinge populações indígenas no Estado de Zulia; Mercado de Maracaibo é palco para comércio com adolescentes de até 14 anos.

BBC

Edição para Água Boa News, Clodoeste Kassu

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‘Leve-as por 100 bolívares’: o drama das meninas venezuelanas obrigadas a se prostituírem para comer

A polícia local afirma que menores se prostituem na região central de Maracaibo, oeste da Venezuela

Foto: Humberto Matheus

Mariela tem 14 anos e é integrante da tribo indígena wayuu. São 11h e ela grita em frente a cerca de 20 caminhões estacionados perto do Mercado Los Plataneros, em Maracaibo, no oeste da Venezuela: "Oferta, oferta! Leve-as por cem bolívares!".

Usa batom vermelho, short jeans justo e uma camisa falsa do time espanhol de futebol Real Madri.
Mariela recebe 4 mil bolívares por dia para vender frutas nas plataformas onde os veículos ficam estacionados. Ganha menos de um dólar por dia em um país onde há, por um lado, um controle severo do câmbio, e por outro, várias cotações para a moeda americana, uma totalmente diferente da outra.
 
Na frente da mãe, ela afirma que também estuda. Mas os seguranças, comerciantes e camelôs presumem que ela e pelo menos outras 20 adolescentes eventualmente exercem outro tipo de função na região central da cidade: prostituição.
 
A polícia do Estado venezuelano de Zulia (onde fica Maracaibo) prende, em média, dez mulheres por semana acusadas de prática de prostituição na região do Mercado de Maracaibo.
 
Daniel Noguera, comandante da Polícia Bolivariana do Estado de Zulia, afirma que quatro nesse grupo são menores de idade e, em grupos como este, sempre há uma indígena.
 
As operações de detenção geralmente acabam com algumas orientações passadas para as adolescentes e a liberação de todas elas.
 
Mercado 24 horas
 
O Mercado de Maracaibo opera ao ar livre durante 24 horas. No local é possível ver a sujeira e a lama em meio ao calor de 36°C dos últimos dias de outubro. Existe uma cerca, mas apenas em um dos lados.
 
Os caminhões entram e saem em meio ao mau cheiro. Crianças indígenas chegam ao lugar vestindo trapos e pedindo esmolas.
 
Kelvin Rincón, vendedor de bananas, explica o que acontece.
 
"Essas meninas estão aqui a toda hora. É um desastre. Elas vendem café ou bananas, mas começam a te tocar, falar besteiras. Eles se relacionam com elas dentro dos caminhões."
 
Ilse Cruz, uma vendedora de café de 57 anos, diz que os programas geralmente acontecem dentro dos caminhões, em pequenos apartamentos próximos do mercado ou barracões.
 
Oswaldo Márquez, presidente da Associação de Comerciantes do Mercado de Maracaibo, explica que o local também tem problemas como roubo, consumo de bebidas alcoólicas e drogas, afetando pelo menos cem meninos e meninas, a maioria integrantes de tribos venezuelanas.
 
Diferenças culturais
 
Cerca de 35% dos jovens venezuelanos tem a primeira relação sexual entre os 12 e 18 anos, de acordo com estudos.
 
Segundo o antropólogo Mauro Carrero, na cultura wayuu não existe um período de transição entre a infância e a idade adulta e, por isso, não se pode falar de sexualidade precoce.
 
Existe até uma tradição entre os wayuu chamada de "a clausura", na qual as mulheres adultas explicam para as jovens na puberdade quais são seus deveres como mulher e futura esposa.
 
"Para elas, a virgindade não é uma preocupação moral, como na concepção judaico-cristã. E, nos dias de hoje, ainda existe uma pressão adicional, que é a crise econômica", explica ele, professor da Universidade do Estado de Zulia.
 
Fome
 
Os frequentadores do Mercado de Maracaibo contam que os corpos das meninas, sejam elas wayuu ou de outras tribos, são moeda de troca para a obtenção de uma quantia que varia entre mil e 2 mil bolívares (algo que varia entre 25 a 50 centavos de dólar americano segundo a taxa do mercado "negro" de divisas), algumas bananas ou qualquer outro tipo de comida.
 
E isso é consequência da fome e do abandono das populações indígenas da Venezuela, como afirma o deputado Virgilio Ferrer, integrante da Comissão de Povos Indígenas da Assembleia Nacional.
 
A Constituição do país inclui um capítulo inteiro para garantir os direitos das populações indígenas. Entre seus artigos 119 e 126 está a garantia do respeito a sua organização social, econômica e política.
 
Mas, de acordo com o parlamentar, essas leis não são cumpridas.
 
"Há um abandono total do ponto de vista social. Há fome, desemprego e pouca educação. Até os pais dessas meninas fazem vista grossa", explicou.
 
No Estado de Zulia, que faz fronteira com a Colômbia, a desnutrição infantil chega 20%, de acordo com informações da Secretaria de Saúde.
 
O Censo de 2011 mostrou na Venezuela existem 415 mil indígenas concentrados em sua maioria nos povoados de Mara, Guajira e Almirante Padilla, em Zulia, onde o índice de desnutrição supera os 30%.
 
Jhonny, um homem pequeno de 54 anos que trabalha nas empilhadeiras do mercado, concorda que os problemas sociais que podem ser observados na região central de Maracaibo têm uma causa: a fome.
 
"Isso é horrível. Às vezes vejo as crianças comendo bananas podres que os caminhoneiros jogam fora", contou.
 
Pesquisas da Universidade do Estado de Zulia, como a da socióloga e professora Natalia Sánchez, revelam que a pobreza atinge cerca de 80% dos 3,7 milhões de habitantes da região.
 
"Há dez anos esse indicador estava em 55%. E hoje mais de 35% desta pobreza geral é extrema."
 
Órgãos de Estado, como a Fundação Niño Zuliano e o Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente, realizam operações de "abordagem" no mercado.
 
Mas as casas de abrigo onde o governo hospeda os menores com as piores situações social e familiar não conseguem dar conta.
 
Jonathan Perozo, advogado do Conselho Municipal do Direito da Criança, admite que os casos como os do mercado testam a capacidade das instituições venezuelanas.
 
"Somos limitados no que diz respeito a ferramentas de trabalho. O orçamento é baixo e falta verbas", contou.
 
Duas cervejas
 
Dois homens de mais de 40 anos falam abertamente sobre a situação em frente a um local que vende suco de laranja no mercado a 300 bolívares o copo - menos de um centavo de dólar "negro". Eles falam de uma jovem que passa pelo mercado usando uma minissaia.
 
"Convidei esta menininha e ela aceitou. Tem 15 aninhos. Levei para o Gran Bazar - um centro comercial aqui perto -, ofereci duas cervejas e disse 'venha'."
 
Os dois riem do crime.
 
Mariela, a jovem wayuu com a camiseta do Real Madrid, garante que não se prostitui. A risada de outra adolescente interrompe sua fala.
 
A adolescente brinca com um jovem em cima de um dos caminhões.
 
Outra menina coloca metade do corpo na cabine do mesmo veículo, deixando a porta entreaberta enquanto negocia um encontro com o motorista.
 
Mariela se aproxima e fala mais alto, mas não oferece seu produto, como estava fazendo antes. Desta vez ela avisa as amigas sobre a presença da imprensa.
 
"Oi! Cuidado, vocês não sabem quem está vendo vocês!"
 
A adolescente ri e brinca com as outras meninas. Antes de reforçar sua "defesa".
 
"Há algumas que fazem isso sim... Mas eu não sou destas."
 
Esta reportagem faz parte da série especial 100 Mulheres, da BBC.
 
O que é o 100 mulheres?
 
O BBC 100 Mulheres (100 Women) indica 100 mulheres influentes e inspiradoras por todo o mundo anualmente. Nós criamos documentários, reportagens especiais e entrevistas sobre suas vidas, abrindo mais espaço para histórias com mulheres como personagens centrais.
 
Além disso, publicamos uma série de reportagens sobre os problemas enfrentados pelas mulheres em diferentes partes do mundo.
 
Por isso, queremos que você se envolva com seus comentários, opiniões e ideias. Você pode interagir e encontrar o conteúdo do 100 Mulheres em plataformas como Facebook, Instagram, Pinterest, Snapchat e YouTube, usando a hashtag #100women.
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