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30/05/20 às 20:28

Em meio a subnotificações de casos, coronavírus avança na área de índios isolados

País tem três vezes mais mortes de índios do que afirma o governo, diz entidade; Vale do Javari, onde vivem povos não contatados, já registra as primeiras infecções

Daniel Biasetto, Época

AguaBoaNews

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Em meio a subnotificações de casos, coronavírus avança na área de índios isolados

Aviso na Aldeia Juçaral, da Tribo Indígena Araribóia, no Maranhão

Foto: Arquivo pessoal

A morte de um recém-nascido da etnia Xavante, no município de Alto Boa Vista, em Mato Grosso, há 10 dias, é a terceira entre bebês indígenas vítimas de coronavírus e mais uma entre outras 116 em todo o país não confirmadas pelo Ministério da Saúde. Levantamento feito por ÉPOCA junto à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) mostra que o número de óbitos de índios é três vezes maior do que o divulgado pelo governo.
 
A taxa de letalidade (porcentagem dos que morreram após caso confirmado) da Covid-19 entre esses povos está em 9,9%, uma vez e meia maior do que a da população brasileira (6,1%), apontada como uma das mais altas do mundo. Mas como há subnotificação dos casos, é possível que esses números sofram alterações. A primeira morte de indígena no país foi registrada há dois meses. Uma anciã borari, de 87 anos, em Alter do Chão, no Pará, também não notificado entre os casos da Sesai.

Até sexta-feira (29), foram registradas pela APIB 167 mortes em todo o país ante 51 divulgadas pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que não contabiliza os casos de índios que moram em contexto urbano ou não aldeados. São mais de duas mortes por dia desde o caso da anciã de Alter do Chão.  No total, de acordo com os dados coletados pela  entidade junto a organizações, distritos especiais  indígenas e secretarias de saúde, 1.747 índios de 76 etnias contraíram a doença. A Sesai fala em 1.252 casos.

O Estado do Amazonas responde por mais de 65% dos registros (107). Pará vem em seguida (25) à frente de Pernambuco (9) , Roraima (8) e Ceará (8).

"As subnotificações e o fato da Sesai não acompanhar e registrar os indígenas que vivem nas cidades fora dos territórios tradicionais são um ato de racismo institucional", afirma a coordenadora da APIB, Sonia Guajajara.
 
Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, tem índios isolados Foto: CGIIRC/Funai
Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, tem índios isolados Foto: CGIIRC/Funai

Para Sonia, o número de contaminados é ainda maior, mas a falta de acesso à testagem impede que mais casos sejam notificados.

O Brasil possui aproximadamente 850 mil indígenas distribuídos entre 305 povos. De acordo com a APIB, mais de 81 mil estão em situação de vulnerabilidade no Brasil durante a pandemia.

Em nota, a Sesai afirma que "não analisa dados de levantamentos paralelos e que os dados do boletim epidemiológico são referentes aos registros oficiais realizados pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas sobre os pacientes atendidos conforme a legislação vigente". O secretário da Sesai, Robson Santos da Silva, não quis comentar.

Isolados podem ser dizimados

A realidade dos números vai além das dezenas a mais de indígenas mortos no Brasil pelo coronavírus, aponta para falha das autoridades no atendimento adequado a esses povos dentro e fora dos territórios tradicionais em meio à pandemia e ao total descontrole em áreas isoladas, onde basta apenas uma contaminação para que todo um grupo seja dizimado.

No Vale do Javari, onde há a maior concentração de povos isolados do mundo, a reportagem confirmou com a Secretaria de Saúde de Atalaia do Norte os dois primeiros casos e o primeiro óbito, de uma indígena mayoruna, de 70 anos, que estava em tratamento em Manaus e possivelmente contraiu a doença na Casa de Apoio Indígena (Casai) da cidade. Outros dois são homens também da etnia mayoruna, um deles agente de saúde no município e outro é seu sobrinho. Os dois tiveram contato com um terceiro indígena, que retornou sem ser testado para Aldeia Lobo, onde vivem outros cerca de 1.600 indígenas ao longo do rio Jaquirana. Para a Sesai, apenas a morte da indígena foi confirmada, outros casos não existem.
 
A narrativa de uma tragédia anunciada é confirmada no episódio envolvendo dois recém-contatados da etnia korubo, moradores da Terra Indígena Vale do Javari. Uma criança foi levada para Atalaia do Norte depois de ter sido picada por uma cobra. Ficou em observação na Unidade Básica de Saúde (UBS) onde trabalha a gerente de enfermagem, que segundo ÉPOCA apurou, testou positivo para coronavírus.

Vale do Javari registrou dois primeiros casos de coronavírus Foto: Adam Mol/Funai
Vale do Javari registrou dois primeiros casos de coronavírus Foto: Adam Mol/Funai

A própria coordenação do Distrito de Saúde Indígena (Dsei) não seguiu o protocolo de quarentena ao levar os korubos para a base de proteção no rio Ituí-Itacoaí, porta de entrada para a Terra Indígena, onde há maior fluxo de ingresso para as aldeias.

Os indigenistas apontam para uma ameaça real de contaminação desses povos a partir desse ponto, onde afirmam, uma simples gripe pode matar um índio em 24 horas. Habitam o Vale do Javari os povos marubo, mayoruna, matis, kanamari, tsohom Djapa, kulina pano e korubo. Há ainda o registro de ao menos 16 povos isolados, dos quais dez já foram confirmados e outros seis estão em estudo.

"Um indígena que entrar contaminado ali pode acabar acarretando a dizimação de um povo inteiro", afirma o médico Lucas Albertoni, que participou de uma expedição de contato aos índios Korubo, em 2019.
 
Albertoni esteve ainda em outros dois processos de contatos com os Korubo em 2014 e 2015 e afirmou ser primordial, independente da Covid-19, estabelecer um protocolo rigoroso em relação aos isolados.

"É preciso que seja feito um protocolo correto de quarentena para os profissionais de saúde que irão atender aos indígenas. Os agentes acabam fazendo dentro da cidade, onde se locomovem e podem contrair a doença. É um risco grave do próprio agente levar a doença para a aldeia".

Para o diretor da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Beto Marubo, a ameaça da chegada do coronavírus na região dos índios de recente contato e isolados já é uma realidade.

"Nossa situação é preocupante, pois esses indígenas compartilham território com outros sete etnias, cada um com diferentes níveis de contato. Esses povos dependem de uma atenção sistemática da Funai e da Sesai e até agora não há um plano de contingência, nem uma sala de situação para interação das autoridades federais e locais. Se essa doença chegar aos índios de recente contato, eu não vejo outro cenário a não ser o caos, pois eles não têm imunidade nem de uma simples gripe."
 
Casos de Covid-19 em indígenas isolados elevam preocupação quanto à dizimação desses povos Foto: Funai
Casos de Covid-19 em indígenas isolados elevam preocupação quanto à dizimação desses povos Foto: Funai

Procurado, o coordenador da Dsei Javari, Jorge Marubo, não quis comentar o fato de não ter testado os indígenas antes de levá-los à base, onde agora estão isolados e sem testagem.
 
"O Dsei do Vale do Javari está fazendo 'roleta russa' levando índios sem testagem para Terra Indígena", afirma um servidor que conhece bem a região.

A Funai afirma ter elaborado um Plano de Contingência"próprio", atividades de monitoramento, vigilância e conscientização junto às aldeias. Porém, questionada para apresentar a íntegra do plano, o órgão não deu retorno.

"A Funai está atenta e agindo para passar por esta crise de saúde mundial da melhor forma possível", diz nota.

Localizada no oeste do Amazonas, na fronteira com o Peru, a Terra Indígena Vale do Javari teve seu processo de demarcação finalizado no governo Fernando Henrique Cardoso, em 2001, e possui uma extensão territorial equivalente a quase dois estados do Rio de Janeiro (85,4 mil km²). É considerada a segunda maior demarcação depois da Terra Yanomami (96, 6 mil km²), homologada em 1992, pelo ex-presidente Fernando Collor.
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