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22/11/15 às 14:06

PREJUÍZO: Lama de Mariana chega ao mar do ES com protesto de moradores

A enxurrada de lama atingiu o mar aproximadamente às 15h, em camadas menos densas de barro

Folha Press

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PREJUÍZO: Lama de Mariana chega ao mar do ES com protesto de moradores

Lama encontra mar em Linhares, no Espírito Santo

A lama liberada com o rompimento de barragens em Mariana (MG), no dia 5, chegou ao mar do Espírito Santo na tarde deste sábado (21) acompanhada por barcos de pescadores e protesto de moradores do vilarejo próximo, Regência, na cidade de Linhares.

Um dos líderes do povoado guiou o protesto vestido de Morte, com túnica preta e uma foice com a inscrição Samarco, mineradora responsável pelas barragens e que pertence à Vale e à anglo-australiana BHP Billiton. Oito pessoas morreram, 12 estão desaparecidas e há quatro corpos que aguardam identificação.

A enxurrada de lama atingiu o mar aproximadamente às 15h, em camadas menos densas de barro. A reportagem sobrevoou por volta das 17h a foz do rio Doce, no encontro com o mar, na altura da praia de Regência.

Monitoramento do Serviço Geológico do Brasil ao longo do rio Doce, apontava que a lama chegaria ao oceano na próxima semana. Entretanto, a massa de argila e silte, sedimentos com grãos muito finos, alcançou o litoral neste sábado.

A região de Regência, na foz do rio, é área ambiental protegida por ser considerada berçário para diversas espécies marinhas, em especial tartarugas. Nos últimos dias, integrantes do projeto Tamar deslocaram ninhos de tartarugas da rota da lama como medida preventiva.

Um fio dividindo a água ainda clara da barrenta estendia-se da foz do rio até o oceano. Em outros pontos do mar era possível ver manchas de tom marrom claro espalhadas pelo mar.

As barreiras colocadas ao longo do rio nos últimos dois dias, vistas do alto como boias vermelhas, não impediram que o material barrento se misturasse com a água limpa tanto do rio quanto do mar.

A previsão é que a enxurrada de lama deverá atingir uma área de 9 km de mar ao longo do litoral do Espírito Santo, de acordo com um modelo matemático elaborado por pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). E, embora os impactos no oceano devam ser menos drásticos do que no vale do rio Doce, eles poderão ser duradouros e afetar, por muitos anos, a presença de algas, moluscos, crustáceos e peixes.
 
'O RIO É DOCE, A VALE É AMARGA'
Na praça central de Regência, vilarejo onde vivem cerca de 1.200 pessoas, moradores decidiram receber a lama da mineradora com cruzes, faixas de protesto e oração.

"A gente recebe essa lama com uma expectativa muito negativa, não sabe o que vai ser do futuro das nossas crianças", disse o comerciante Messias Caliman, 49, presidente da ACR (Associação Comercial de Regência) e trajado de "Morte" no protesto.

Cartazes com dizeres como "Quanto Vale o Rio Doce" eram acompanhados de cruzes nas mãos de crianças. O cortejo seguiu com gritos de "O Rio é Doce! A vale é amarga", trechos de um poema de Carlos Drummond de Andrade relembrado desde a catástrofe em Mariana.

Ao encontrarem ao píer do rio Doce, parte da população deitou no chão, ao lado da "Morte" para simbolizar a fatalidade por que passa o rio com a tragédia.

A palavra passou então a uma das mais antigas moradoras de Regência, Hilda Lourenço Pessanha, 73. "O Senhor Jesus deu água boa para nós beber, e não essa água amargosa, barrenta. O que será da nossa vida sem água para beber?". A matriarca do vilarejo rezou então um pai-nosso e ave-maria, acompanhada dos moradores.

Ao protesto pacífico, seguiu-se uma apreensão: a notícia de que máquinas escavariam parte do rio para entrada de uma balsa, o que levaria à derrubada de algumas árvores. Em defesa delas, o grupo seguiu então em direção ao maquinário.

As árvores não haviam sido arrancadas até as 19h30 deste sábado, e pareciam que seriam poupadas. Mas pequenos coqueiros foram arrancados por retroescavadeiras, ação seguida de vaias de moradores e surfistas que praticam o esporte na praia de Regência.

Um dos mais revoltados com a chegada da lama, no protesto, parecia ser o comerciante André Luis Machado de Oliveira, 45. Ele observou que não só dentro do leito do rio a natureza está sendo afetada. "Aqui perto do rio, onde estamos, não pode entrar carro. Em 30 anos que moro aqui, hoje foi a primeira vez que entrei de carro para ajudar na manutenção de uma máquina. E agora vejo esse maquinário pesado aqui. É uma tristeza só.

ESCOAMENTO NO MAR
A Justiça Estadual do Espírito Santo determinou que a Samarco, mineradora controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton, adote as medidas necessárias para facilitar o escoamento da água do rio Doce, para que ela se dissipe no mar.

A decisão, de acordo com o TJ (Tribunal de Justiça) do Espírito Santo, foi tomada pelo juiz Thiago Albani Oliveira, da Vara da Fazenda Pública, Registros Públicos e Meio Ambiente de Linhares, depois de ouvir especialistas e reunir representantes de órgãos como o Iema (Instituto Estadual de Meio Ambiente) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).

Segundo a assessoria do TJ, o juiz destaca em sua decisão que "o pedido principal da presente demanda é garantir que a lama expelida com o rompimento da barragem em Minas Gerais -que já passou por diversos municípios- passe sem retenções por Linhares, o último município antes de a lama atingir o mar".

A ação foi movida pela Prefeitura de Linhares, que alega que conter a lama no município seria temerário. A avaliação de membros da administração é a de que bloquear a chegada da lama ao mar seria como "estacionar a morte na frente da cidade".

Com a decisão judicial, a mineradora deverá fazer a abertura imediata dos pontos de vazão naturais do rio Doce para o mar, em sua foz, e que estejam assoreados. A Samarco terá ainda de proteger acessos da água do rio Doce a outras fontes de água, como lagoas e afluentes, levando em conta pontos identificados pelo ICMBio e Iema.

A decisão contraria decisão anterior da Justiça Federal do Espírito Santo, que determinou, por meio de liminar, que a Samarco impedisse a lama de chegar ao mar e previa multa de R$ 10 milhões por dia em caso de descumprimento.

Para os participantes da reunião que embasou a decisão de Oliveira, a chegada da lama ao mar seria menos prejudicial para o ambiente do que seu represamento no rio Doce.

A lama com rejeitos de mineração afetou, até agora, pelo menos dez municípios em Minas Gerais e dois no Espírito Santo, provocando desabastecimento em cidades como Governador Valadares (MG) e Colatina (ES).

A decisão do juiz Oliveira diz que os pontos de vazão naturais do rio para o mar devem ser mantidos abertos e com razoável vazão até nova deliberação dos órgãos ambientais.

À Samarco caberá ainda remover obstáculos que possam conter a água do rio para o mar -natural ou artificial-, após ser notificada pelo instituto ambiental estadual.

A Justiça determinou também que sejam resgatados representantes de todas as espécies da fauna aquática nativa que têm o rio como habitat, assim como ovos de tartarugas marinhas que possam ser afetadas pelo "mar de lama".

Uma multa de R$ 20 milhões foi fixada em caso de descumprimento da decisão, além de mais R$ 1 milhão por dia.

Procurada, a Samarco informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que está tomando todas as providências definidas por órgãos como Ministério Público, Projeto Tamar, Iema e ICMBio "para direcionar a pluma de turbidez para o mar e proteger a fauna e a flora na foz do rio Doce".

Ainda de acordo com a empresa, a recomendação dos órgãos é deixar que a lama chegue ao mar, local mais adequado para recebê-la. Equipamentos foram fornecidos pela Samarco para a abertura do banco de areia que impede a chegada do rio ao mar no lado sul da foz do rio.
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