Notícias / Meio Ambiente

05/11/19 às 09:17 / Atualizada: 05/11/19 às 09:54

Líder indígena assassinado em série de ataques na Amazônia

Paulo Guajajara foi baleado em emboscada de madeireiros no Maranhão; base de indígenas isolados sofre dois atentados seguidos

Elaíze Farias, Amazônia Real via Colabora

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Líder indígena assassinado em série de ataques na Amazônia

Paulo Paulino Guajajara: líder indígena baleado na floresta durante emboscada

Foto: Patrick Raynaud (APIB/Amazônia Real)

O fim de semana foi de ataques sangrentos aos povos da floresta no Brasil. Em menos de 24 horas, invasores atentaram contra dois territórios indígenas na Amazônia Legal. Na Terra Araribóia, no Maranhão, o guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, de 26 anos, foi assassinado com um tiro no pescoço no início da tarde de sexta-feira, 1º de novembro, durante emboscada de madeireiros ilegais. Na noite de quinta-feira (31), a Base de Proteção Etnoambiental Ituí-Itacoaí da Funai, que atende os indígenas isolados Korubo, na Terra Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas, foi alvo de tiros dados por pescadores e caçadores ilegais.

No domingo (3), a base do rio Ituí-Itacoaí voltou a ser atacada a bala. Segundo Manoel Chorimpa, do povo Marubo e integrante da organização União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), é o oitavo ataque em um ano ao território. A situação, avalia ele, começou a se agravar no fim de 2018, logo após a eleição de Jair Bolsonaro.

“A Terra Indígena Vale do Javari está sem controle, perdendo a proteção. Os invasores não têm mais medo de serem flagrados. Eles entram porque sabem que a Funai está fragilizada neste governo, que o órgão não tem mais fiscalização, nem estrutura de proteção. Pode acontecer uma tragédia e vamos responsabilizar as autoridades por omissão”, avisou Chorimpa neste domingo.

O assassinato de Paulo Paulino Guajajara aconteceu na região de Bom Jesus das Selvas, entre as aldeias Lagoa Comprida e Jenipapo. Outro indígena, Laércio Guajajara, foi ferido com tiros no pescoço e no braço. Ele é primo de Sônia, candidata à vice-presidência da República na chapa de Guilherme Boulos (PSOL). “Não queremos mais ser estatística, queremos providências do Poder Público, dos órgãos que estão cada vez mais sucateados exatamente para não fazerem a proteção dos povos que estão pagando com a própria vida por fazer o trabalho que é responsabilidade do Estado. Exigimos justiça urgente!”, disse ela, em nota da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

 
"Eram cinco invasores armados que já vieram com intenção de dar tiro. De imediato, deram tiro certeiro no rosto do Paulo. O Laércio também foi atingido, mas conseguiu fugir". Fabiana Guajajara, líder indígena
 
Fabiana Guajajara contou que Paulo Paulino e Laércio Guajajara (nome indígena Tainaky Tenetehar) estavam numa caçada de rotina, quando se depararam, por volta das 13h30 de sexta-feira (31), com os madeireiros dentro do território. A Terra Indígena Araribóia foi homologada pelo governo brasileiro em 1999 com 413 mil hectares, onde vivem 6 mil indígenas – assim, é crime invadir o território e desmatar a floresta.

“Eles não estavam em missão de monitoramento como guardiões da floresta, estavam apenas caçando, quando foram surpreendidos pelos invasores. Eram cinco invasores armados que já vieram com intenção de dar tiro. De imediato, deram tiro certeiro no rosto do Paulo. O Laércio também foi atingido, mas conseguiu fugir. Ele já recebeu cuidados médicos. Estamos recebendo apoio da Secretaria Estadual de Segurança do Maranhão”, afirmou Fabiana.

Segundo nota divulgada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Paulo Guajajara, também conhecido como “Lobo mau”, levou um tiro no pescoço e morreu na floresta. Laércio foi atingido com um tiro nas costas e um no braço, mas conseguiu sobreviver depois de ser atendido em um hospital público de Imperatriz, no Maranhão.

Laércio relatou que Paulo quis continuar na caçada porque pretendia levar uma queixada (porco-do-mato) para a alimentação da família. “Eles decidiram procurar uma cacimba [poço natural] e enquanto estavam limpando a água, o Laércio foi tomar banho. Foi quando eles escutaram um barulho, como se fosse bicho rasgando a mata. O Paulo achou que era queixada, mas quando viram, eram homens fortemente armados, que já foram metendo tiro, não teve conversa. Um tiro atingiu o Paulo na nuca, perto do ouvido e do pescoço. Quando o Laércio viu o Paulo caído, com a mão no pescoço, ele decidiu fugir”, relatou Silvio.

De acordo com Silvio Guajajara, Laércio, mesmo com balas no braço direito e nas costas, conseguiu correr dez quilômetros pela mata, pegou uma motocicleta e se dirigiu à aldeia mais próxima. Ele foi atendido em um hospital de Imperatriz, onde passou por cirurgia para retirada das balas. “Agora, a situação está muito triste aqui, clima muito forte. Os pais dele [Paulo Paulino] estão muito tristes”, disse Silvio. O corpo de Paulo Paulino Guajajara, segundo Silvio, foi resgatado neste sábado (2) e levado ao Instituto Médico Legal (IML) de Imperatriz.

A morte de um madeireiro invasor chegou a ser anunciada, mas a informação foi negada pelo Comandante do 34° Batalhão de Polícia Militar de Amarante do Maranhão, tenente-coronel PM Araújo. “Não procede a morte do não-indígena. A perícia da Polícia Civil esteve no local”, disse ele.

Em comunicado divulgado neste sábado (02), a Univaja afirmou que o ataque à Base de Proteção Etnoambiental Ituí-Itacoaí foi o sétimo este ano. O anterior havia sido em 21 de setembro. De acordo com as lideranças indígenas do Vale do Javari, a estratégia dos invasores, agora, é dar tiros em direção às bases e para o alto e assim evitar que eles sejam importunados pela vigilância da Funai. “Eles já fazem isso para intimidar, para que não sejam abordados”, disse Manoel Chorimpa.

Os indígenas são ameaçados até por missionários fundamentalistas. O evangélico norte-americano Andrew Tonkin ingressou ilegalmente na região onde vivem indígenas isolados nas margens do rio Itacoaí, também no Vale do Javari. A denúncia foi registrada dia 24 de setembro deste ano em carta enviada à Funai. Até o momento, a fundação não informou se tomou providências para expulsar o religioso que, segundo os indígenas, pretende fazer contato com os isolados Korubo, povo em situação de alta vulnerabilidade territorial e sociocultural.

Segundo a Univaja, indígenas do povo Matís, que transitam regularmente no território, relataram à organização que abordaram o religioso Andrew Tonkin dia 19 de setembro, quando o estrangeiro estava acampado às margens do rio Itacoaí. “Tonkin estava acompanhado de um pastor indígena da etnia Mayoruna do lado do Peru”, relataram os Matís à Univaja. Os indígenas Mayoruna são binacionais, pois possuem territórios tanto no Brasil quanto no Peru. No Brasil, seu território fica no Vale do Javari.

O presidente da Univaja, Paulo Marubo, informou que a organização comunicou a entrada ilegal de Andrew Tonkin na TI Vale do Javari, mas até o momento não recebeu resposta sobre providências da Funai. Na semana passada, Paulo Marubo voltou a fazer a denúncia sobre a presença do missionário nas redes sociais, pedindo ajuda das autoridades brasileiras.

A Amazônia Real apurou que Tonkin integra missão chamada Frontier Internacional, dos Estados Unidos. Seu perfil é exibido no site da instituição religiosa. Ele é descrito como uma pessoa que “faz trabalho missionário há mais de onze anos na bacia amazônica e que seu trabalho consiste no plantio de igrejas indígenas e no trabalho da missão de crescimento da igreja”.

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, se pronunciou apenas sobre o ataque à Terra Indígena Araribóia. A Funai, chefiada pelo delegado da Polícia Federal Marcelo Augusto Xavier da Silva, apoiado pela bancada ruralista no Congresso, não se pronunciou sobre os dois ataques às terras indígenas até a manhã da segunda-feira (4), tampouco informou que medidas vai tomar para proteger os territórios.

Pela sua conta no Twitter, Sérgio Moro declarou que a PF irá apurar o assassinato de Paulo Paulino Guajajara. “Não pouparemos esforços para levar os responsáveis por este crime grave à Justiça”, garantiu. O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), também postou em sua conta no Twitter que a polícia do Maranhão está colaborando as investigações, apesar da competência para apurar crimes contra direitos indígenas seja federal. “Do mesmo modo oferecemos ajuda ao Ibama para combater a incêndios na mesma terra. Secretários de Segurança Público e de Direitos Humanos do Maranhão estão em Imperatriz, em reuniões sobre a Terra Indígena Araribóia. Estamos colaborando com os órgãos federais”, escreveu o governador.

Paulo Paulino Guajajara (seu nome indígena é Kwahu Tenetehar) tinha 26 anos de idade e integrava o grupo Guardiões da Floresta. Formado por 120 indígenas, o grupo foi criado em 2013 para combater retirada ilegal de madeira do território e até incêndios criminosos dentro da Terra Indígena Araribóia, onde vive também o povo Awa-Guajá. Seu corpo deve ser transportado para a aldeia Mucura, de onde são seus pais, para ser enterrado.
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