Notícias / Meio Ambiente

25/08/19 às 18:31 / Atualizada: 25/08/19 às 19:00

Deu no Globo Rural - Grupo usou whatsapp para convocar 'Dia do Fogo'; Bolsonaro manda investigar

Polícia investiga ação de incendiários, ao menos 70 pessoas participaram de grupo de mensagens; no dia 10 de agosto, número de focos de incêndios cresceu repentinamente na Amazônia

Ivaci Matias, de Cachoeira da Serra (PA)

AguaBoaNews

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Incêndios começam na beira da estrada e se alastram para dentro da mata. (Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)

Em Altamira, no Pará, município que lidera o número de incêndios e desmatamentos no Brasil, o Distrito de Cachoeira da Serra, um dos polos agrícolas mais disputados pelos agricultores, ainda repercute a maior queimada da história do Pará, que aconteceu no dia 10 de agosto. Essa data vai ficar lembrada para sempre por aqui como o “Dia do Fogo”.

Já se sabe que mais de 70 pessoas – de Altamira e Novo Progresso --  entre sindicalistas, produtores rurais, comerciantes e grileiros, combinaram através de um grupo de whatsApp incendiar as margens da BR-163, rodovia que liga essa região do Pará aos portos fluviais do Rio Tapajós e ao Estado de Mato Grosso. A intenção deles era mostrar ao presidente Jair Bolsonaro que apoiam suas ideias de “afrouxar” a fiscalização do Ibama e quem sabe conseguir o perdão das multas pelas infrações cometidas ao Meio Ambiente.
 
Árvore sendo tomada pelas chamas. (Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)

A pedido do Ministério Público de Novo Progresso, o Delegado Daniel Mattos Pereira, da Polícia Civil, já ouviu algumas pessoas ligadas ao “Dia do Fogo”, até agora ninguém foi preso.
As delegacias dos municípios de Castelo dos Sonhos e Novo Progresso receberam inúmeras denúncias de produtores rurais que se dizem prejudicados pelas queimadas.

Muitos perderam cercas, pastagens, lavouras e animais, tudo devorado pelo fogo. Depois que a denúncia do “Dia do Fogo” veio a público, uma nova versão circula por toda a região. A pecuarista Nair Brizola, de Cachoeira da Serra, faz eco a uma história que ouvimos em toda parte. Ela nos procurou quando circulava pela estrada da “Bucha”, onde nossa equipe documentava uma queimada.
 
–“Vocês são do meio ambiente?”, gritou ela de dentro de sua caminhonete.
-“Não. Somos jornalistas.”
– “Que ótimo. Que ótimo,“ diz em seguida.
– “Quem está colocando fogo por aqui?”, pergunto a ela
–  “É o ICMBio [a sigla se refere ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]. Tinha uma moto preta colocando fogo em tudo aqui. E eles foram na minha propriedade com essa moto amarrada em cima da caminhonete deles. Tava escrito lá na porta”
Sem saber que nossa conversa estava sendo gravada, dona Nair continua:
– “Esse povo, se eles veem você, eles já vêm armado, já manda você parar, já toma seu celular. Você não pode fazer nada. As caminhonetes que eles andam fazendo esse terror todo, está escrito ICMbio. O presidente Bolsonaro tá certo quando diz que essas Ongs estão botando fogo,” completa ela.
- “Mas, ele andou falando também que pode ser os fazendeiros”, interrogo.
-“Não vou dizer que um ou outro não está fazendo isso, mas esse fogo que colocaram ai na beira da estrada, não é dos fazendeiros.”


Queimadas pintam de cinza área que antes era verde e cheia de árvores.(Foto: Emiliano Capozoli/Ed.Globo)

A vegetação muito seca das beiras das estradas continua com focos de incêndios que chegam a interromper o tráfego na BR 163. Entrando pelas vicinais de terra deparamos uma enorme área de floresta ardendo em chamas.
 
Uma enorme queimada colocada no entorno de uma área de floresta primária. O fogo foi colocado estrategicamente circundando a floresta, bem no horário em que o vento carrega as chamas para o interior dela. Ao lado o tratorista, Erisvã da Conceição Silva, passa uma grade no terreno, que um dia já foi floresta,  preparando a área  para o plantio de grãos.

--“Quem colocou fogo aí?", pergunto a ele.
-- “Esse fogo veio lá da estrada do outro lado.” Aponta para o lado oposto da floresta onde seria praticamente impossível ter originado o fogo, por uma simples razão. Não havia fogo nenhum por lá.

Enquanto a gente conversava com ele, o fogo subia pelas árvores. É de chorar. Pássaros e insetos emergiam desesperados de dentro da mata. Vamos continuar por aqui investigando o “Dia do Fogo” data que ninguém mais vai esquecer. Dez de Agosto de 2019, quando vários incêndios criminosos pipocaram pela Amazônia assustando o mundo inteiro: Os Estados de: Rondônia, Acre, Amapá, Mato Grosso, Amazonas e Pará arderam em chamas ao mesmo tempo. Queimadas que em geral acontecem espontaneamente na época de seca, mas não em proporções como essa.


Bolsonaro manda investigar grupo que convocou 'dia do fogo' no Pará

No Twitter o ministro Ricardo Salles comentou reportagem da Globo Rural


Ricardo Salles compartilhou reportagem da Revista Globo Rural e disse que governo vai investigar fatos narrados. (Foto: Reprodução Twitter)

O ministro do Meio Amviente, Ricardo Salles, disse, neste domingo, que o governo vai investigar rigorosamente as suspeitas de uma ação articulada pelo Whatsapp para atear fogo na floresta amazônica. No Twitter, Salles compartilhou a reportagem de Globo Rural, publicada também neste domingo, sobre uma denúncia feita pelo Ministério Público do Pará, em Novo Progresso, que investiga pessoas que teriam organizado ação para atear fogo em pontos da mata no dia 10 de agosto. A data ficou marcada na região como "dia do fogo".

"O presidente Jair Bolsonaro determinou abertura de investigação rigorosa para apurar os fatos narrados", postou Salles.
 
A ação teria sido combinada pelo aplicativo de mensagens whatsapp. Na data, foi detectado um aumento atípico de focos de queimadas na região da Amazônia.
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