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26/02/19 às 15:52 / Atualizada: 26/02/19 às 16:07

Alto Boa Vista/MT - Água, um bem comum: Para os PAs Casulo Vida Nova I e II ela ainda precisa chegar

Liebe Lima/AXA

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“Nós não temos água potável! A potável que chega aqui vem de caminhão ou de trator e nós não sabemos a condição que ela circula naquele tanque. Ele pega lá na mina e sai distribuindo para cada produtor na sua parcela, mas aqui a questão é a seguinte: às vezes vem uma vez na semana, ou duas vezes, quando vem! Tem semana que não vem nem uma vez.” Esta é a realidade que Rogério descreve no dia a dia das famílias, que como ele, são parceleiras e vivem no PA Casulo Vida Nova em Alto Boa Vista, MT. Segundo Iara, que é esposa de Rogério, quando a água chega está barrenta, mas é a única que eles têm.

Já são seis anos desde a criação do PA Casulo Vida Nova, quando foi publicada a portaria de criação no Diário Oficial em 18/12/2012, viabilizada por um acordo de cooperação entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA e a Prefeitura Municipal de Alto Boa Vista. A Prefeitura doou o terreno que assentou 92 famílias retiradas de dentro da Terra Indígena Marãiwatsédé, quando esta foi entregue ao Povo Xavante e os não índios tiveram que sair obedecendo a uma decisão do Supremo Tribunal Federal – STF. Em 2016 foi criado o PA Casulo Vida Nova II, onde vivem atualmente 7 famílias, que receberam lotes de 1 Ha e também aguardam a chegada da urbanização com moradia, água, luz e estradas que dê acesso aos lotes.

 

Uma das famílias que começam a ocupar os lotes do PA Casulo II em Alto Boa Vista – Foto: Alexssandro

 
Sistema de distribuição fundiária do Brasil: Um inimigo comum

Nesta peleja histórica e emblemática de luta por uma vida digna sobre um pedaço de terra para plantar, colher e criar os filhos, observamos os agricultores sem terras e indígenas em lados opostos de um campo de guerra, quando é o sistema político e social que sustenta a desigualdade estrutural de distribuição fundiária no Brasil, sendo este, portanto, o inimigo comum que lhes nega, a um e ao outro, direitos básicos à terra, à água e à fartura de alimentos. Assim, enquanto os pobres e índios fazem a guerra entre si por um pedaço de terra e alguns litros de água limpa, os grandes latifúndios seguem com ampla isenção de impostos e perdão de suas dívidas milionárias aos cofres públicos e os políticos que são escolhidos pelo povo para os representar, seguem com seus privilégios pagos com o suor desse mesmo povo que sequer tem água limpa para beber.

Na ausência de uma solução que até o momento não foi dado pelo poder público, a sociedade civil organizada através da Associação Vida Nova (Casulo I), Associação Boa Esperança (Casulo II), o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alto Boa Vista e a Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção –  ANSA estão se mobilizando para buscar apoiadores que se juntem nessa causa para que os moradores dos PA Casulo I e II em Alto Boa Vista venham a ter água boa e farta à sua disposição.

Quando o estado se ausenta a Sociedade Civil representa

As parcerias dos PAs Casulo Vida Nova I e II com as entidades civis da região já estão rendendo bons frutos. São 47 famílias recebendo acompanhamento da ANSA em processos formativos na preparação e melhoria dos solos para os plantios de roças usando o consorcio de espécies florestais e frutíferas que é característico dos sistemas agroflorestais implantados em outros assentamentos na região, onde é chamado de “Casadão”. O desafio fica maior quando chega o tempo da estiagem. As águas das cacimbas secam e dos plantios de frutíferas nos quintais ou mesmo hortas e plantas medicinais, apenas as mais resistentes ao sol e a seca sobrevivem.

Para Alexssandro Bezerra, presidente da Associação Boa Esperança, nestes dois anos de existência da Associação representando os “sócios” do PA Casulo Vida Nova II, criado em 2016, eles já conseguiram a regularização fundiária do Assentamento e isso significa a garantia de um pedaço de terra para viver com a família e a vitória sobre a dificuldade que o INCRA tem para traçar, regularizar os cadastros das famílias e por fim entregar os lotes. As conquistas são celebradas por Alexssandro, que se diz fortalecido para fazer acontecer e continuar apoiando a comunidade em busca da estrutura que o Assentamento precisa.

 

Sede da Associação Boa Esperança no Pa Casulo Vida Nova II – Foto Alexssandro

 
O acompanhamento à trajetória das famílias que foram assentadas no PA Casulo I desde a sua criação em 2012, vem sendo feita de perto pelo Rui Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alto da Boa Vista. Ele conta que havia a expectativa das famílias de receberem habitação, escola, atendimento básico de saúde e demais estruturas urbanas que são necessários ao bem estar social e que existe muito trabalho a ser feito até que eles recebam de fato o atendimento adequado, reiterando o compromisso do Sindicato de Trabalhadores Rurais com estas famílias, para as quais, segundo Rui, todo o poio que chegar será bem vindo.

 Receber um pedaço de terra é certamente uma dádiva e motivo de grande celebração, mas a falta de apoio financeiro à estruturação necessária para que se possa tirar dela o próprio sustento e o excedente para comercializar e gerar renda, como também, a falta destas perspectivas aos jovens oriundos dos assentamentos da reforma agrária, tem gerado o abandono do campo em direção às periferias das cidades. O resultado disso nós já vimos: É a diminuição na produção de alimentos no campo.

É preciso a terra e as políticas públicas que criem condições para se viver e produzir nela.
A água vem em primeiro lugar!
#AguaNoPaCasuloJá
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