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29/01/19 às 17:15

Mulheres Xavante coletoras de sementes florestais participam de Oficinas de Etnomatemática na Terra Indígena Marãiwatsédé

Liebe Lima/AXA

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Mulheres Xavante coletoras de sementes florestais participam de Oficinas de Etnomatemática na Terra Indígena Marãiwatsédé

Foto: Liebe Lima/AXA

Mitsi (um), maparané (dois) e tsi ubdatõ (três) são as palavras que denominam os números tradicionais que os Xavante usam para contar. A mistura da contagem tradicional com a contagem do waradzu (não indígena), foi muito repetida e aprendida entre os dias 08 a 18 de janeiro de 2019 nas oficinas de “Boas práticas de Pesagem e Coleta de Sementes” realizadas pela Operação Amazônia Nativa – OPAN, nas aldeias A’õpá, Madzabdzé, Marãiwatséde e Etewawe na TI Marãiwatsédé. Apresentar relações entre a contagem tradicional Xavante permeadas por aspectos de sua cultura à forma de contagem ocidental padronizada, foi o desafio do Professor de Etnomatemática Claudio Lopes de Jesus e da equipe de indigenistas que facilitaram esse processo formativo do grupo de mulheres Xavante coletoras de sementes.

Para o dia a dia destas mulheres, contar até seis é o suficiente para que tudo além disso seja considerado o muito ou o pouco de alimentos a ser dividido entre todos os integrantes de suas famílias. No trabalho com as sementes, novos saberes vão sendo trocados e utilizados para nortear a coleta com as informações de espécies e quantidades que a Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) encomenda anualmente ao grupo de coletoras.
 

Professor Cláudio Lopes de Jesus explicando princípios da matemática convencional às mulheres Xavante – Foto: Liebe Lima/AXA
 
O Grupo iniciou em 2011 com 18 anciãs

Pi’õ Rómnha Ma’Ubumrõi’wa é o nome do Grupo de Mulheres Xavante Coletoras de Sementes da TI Marãiwatsédé, que se formou em 2011, após uma visita da ARSX para apresentar o trabalho que vinha se consolidando entre assentados e indígenas da região Xingu Araguaia, com o objetivo de plantar florestas e recuperar áreas degradadas destas bacias e dentro da TI.

Tradicionalmente os Xavante são um povo caçador, coletor e a atividade veio de encontro ao profundo conhecimento na coleta e beneficiamento de sementes das 18 anciãs que iniciaram o trabalho de maneira tímida com apenas duas espécies e continua sendo essencial, para o que se tornou atualmente o maior grupo de coleta que integra a ARSX com 90 mulheres. Nos dois últimos encontros anuais, as coletoras de Marãiwatsédé receberam o prêmio de melhor qualidade de sementes.

Na TI 70% das mulheres falam apenas o idioma “A’uwe” (como o Povo Xavante se autodenomina). A barreira imposta pelo desconhecimento da língua portuguesa e dos códigos complexos de contagem da nossa sociedade e do funcionamento da ARSX, vem sendo superados por elas com a valorização de seu conhecimento tradicional e a tradução dos materiais gráficos e informativos da ARSX para a língua Xavante. Desta forma, as mulheres, enviam uma lista potencial com as espécies de sementes florestais e leguminosas disponíveis no território e realizam suas coletas baseadas no pedido que recebem da ARSX.
 

Jovens Coletoras de Sementes da TI Marãiwatsédé – Foto: Liebe Lima/AXA
 
No início do trabalho elas traziam muitas espécies e quantidades que encontravam na natureza, mas que por não constarem no pedido, não conseguiam entregar.  A cada ano a coleta e a entrega de sementes do grupo vem se qualificando, pois de 30 Kg de sementes entregues em 2011 elas passaram a entregar mais de uma tonelada e a gerar uma renda que em 2018 chegou a R$ 19.000,00, reais com uma lista composta por 37 espécies de sementes dos biomas Cerrado e Amazônico.

A precificação das sementes é realizada pelo coletivo de coletores de sementes da ARSX em assembleias anuais e aqui, cada coletora recebe individualmente pela semente que entregou. Para garantir que a coleta não prejudique a dispersão natural de sementes dentro do território, ao coletar, é mantido em torno de 30% da carga de sementes de cada matriz de onde as sementes são extraídas.
 

Professor Elídio Xavante traduzindo o histórico de coleta e renda das sementes para a comunidade – foto: Liebe Lima/AXA
 
Brincando de contar e pesar sementes

A base da cultura Xavante é configurada pela existência de dois clãs (Öwawe e Po’redza’õno), que determinam os casamentos na sociedade Xavante, permitindo que eles aconteçam somente entre os clãs opostos. Para essas duas metades complementares, as brincadeiras com disputas de jogos de futebol e corrida de toras são um assunto sério, porém, divertido. Nas Oficina de “Boas Práticas de Pesagem e Coleta de Sementes” não foi diferente.

As mulheres contaram de forma tradicional, disputando para ver qual grupo se aproximava mais do peso correto das sementes. Foram treinando a percepção ao usar a sensação de peso do saquinho que elas mesmas haviam enchido de sementes como referência, para finalmente conferir na balança e pasmem, houveram casos de acertos exatos na pesagem. Os vencedores eram premiados e a diversão completa.
 

Anciã do Povo Xavante coletora de sementes da TI Marãiwatsédé em oficina de etnomatemática – Foto: Liebe Lima/AXA
 
O trabalho metodológico das oficinas percorreu várias etapas do processo, simulando desde a distribuição da lista de pedido, sua respectiva coleta, a venda e recebimento do pagamento das sementes. As notas usadas para pagar foram impressas em tamanhos grandes, médios e pequenos, para trazer a dimensão de seus diferentes valores.

Plantando se muda o futuro

Em 2011, ano que o grupo “Pi’õ Rómnha Ma’Ubumrõi’wa” se formou, os Xavante de Marãiwatsédé ainda ocupavam apenas 10% de seu território tradicional. Após terem sido removidos de lá compulsoriamente na década de 60, ao retornarem, mais de 75% da vegetação nativa havia dado lugar ao pasto e se transformado na terra indígena mais desmatada da Amazônia. O grupo de Coletoras na Terra Indígena fortaleceu a comunidade ao contribuir com a realização das expedições de coleta tradicional que o Povo Xavante chama de “Dzoomori”.
 

Mural de fotos do Povo Xavante de Marãiwatsédé tiradas pelo fotógrafo Henrique santian – Foto: Liebe Lima/AXA
 
Desde 2013 que os Xavante de Marãiwatséde tiveram acesso e passaram a percorrer toda a extensão de seu território com 165 mil Ha. As expedições de coleta de sementes são oportunidades para os mais velhos reconhecerem o território e transmitirem seus conhecimentos às novas gerações, como forma de preservar sua língua, sua cultura e recuperar a vegetação nativa da terra, pois somente nela é possível a reprodução de seu modo de vida.

Atualmente o Grupo de coletoras está distribuído nas 7 aldeias da TI Marãiwatsédé e venceram o quadro de 80% de desnutrição grave que suas crianças sofriam quando retomaram seu território. Fizeram isso plantando frutas, enriquecendo os quintais e ocupando as áreas que dispõem de recursos naturais necessários para sua subsistência.
 

Vista aérea da Aldeia central Marãiwatsédé em outubro/2018 – Foto: Giovanny Vera/OPAN
 
Com mais uma etapa vencida no processo formativo para o trabalho com as sementes e mais um exemplo inspirador de como melhorar a qualidade de vida e do meio ambiente em uma atividade produtiva preservando e recuperando florestas.
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