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09/12/18 às 23:01 / Atualizada: 09/12/18 às 23:12

Uberlândia/MG - Barbeiro preso em Nova Xavantina em 2004 após 12 anos foragido, foi condenado há 28 anos pela morte de casal

Homicídios têm desfecho após 26 anos: Antônio Erivaldo Martins é condenado pelo assassinato a facadas do casal Mário e Edith Jacó duas décadas após crime que chocou cidade

Carolina Portilho, Diário de Uberlândia

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Uberlândia/MG - Barbeiro preso em Nova Xavantina em 2004 após 12 anos foragido, foi condenado há 28 anos pela morte de casal

Duplo homicídio ocorreu no dia 6 de abril de 1992 na rua Paris, no bairro Tibery

Foto: Jorge Alexandre Araújo

Já se passaram 26 anos, mas essas quase três décadas não apagaram da memória da família o crime bárbaro que chocou a sociedade uberlandense e que agora chega ao fim. O assunto também foi destaque nos veículos impressos da época, o Correio de Uberlândia e O Triângulo, com matérias sobre a morte a facadas do casal Mário Jacó, de 58 anos, e Edith Sebastiana Jacó, 53, registrada no dia 6 de abril de 1992 na rua Paris, bairro Tibery. No que era considerado um dos processos mais antigos de Uberlândia, na última semana de novembro Antônio Erivaldo Martins, 52, foi condenado a 28 anos de prisão pelo duplo homicídio.

Antônio e seu Mário eram amigos, vizinhos e tinham uma relação de inquilino e locador, respectivamente. Diante dos atrasos no aluguel, a vítima cobrou os valores e pediu que Antônio desocupasse o imóvel onde funcionava uma barbearia. No outro dia, o casal foi morto a facadas. Mário foi surpreendido ao sair de casa ainda na madrugada, por volta das 5h, como fazia todos os dias para caminhar. A esposa, ao ver o marido ferido, gritou por socorro e também foi agredida.

O acusado foi a júri popular, que por unanimidade condenou Antônio, que terá que cumprir a pena em regime fechado. Após a sentença proferida pelo juiz Dimas Borges de Paula, presidente do Tribunal do Júri, ele foi encaminhado para o presídio Professor Jacy de Assis. 

O advogado de defesa, Sérgio Mestriner Júnior, disse à reportagem do Diário de Uberlândia que entrará com pedido de habeas corpus para que o mesmo responda em liberdade e entrará com recurso de apelação pedindo anulação do júri, o que implica em um novo julgamento.

O CRIME

Uma orientação médica fez com que Mário colocasse em sua rotina uma caminhada matinal, que era feita ainda na madrugada, às 5h. No dia 6 de abril de 1992, ao abrir a porta que dá acesso ao quintal e ao portão de acesso à rua, ele foi surpreendido por Antônio, que pulou o muro ao lado da casa da vítima e disse que era um assalto. Ele estava encapuzado e armado com uma faca. 

Quem relata os fatos à reportagem participou das investigações na época – e não quis se identificar. Seu Mário era dono de um comércio que ficava em frente à sua casa e ao lado da barbearia alugada por Antônio. O dinheiro das vendas do estabelecimento de toda a semana era levado pelo empresário para sua casa, prática comum feita antigamente pelos comerciantes. 

“O ladrão queria o dinheiro que Mário arrecadou durante toda a semana. Tudo indica que seu Mário reagiu ao assalto e foi esfaqueado. A esposa gritou por socorro e também foi esfaqueada. De início acharam que o Antônio tinha levado o dinheiro, mas isso não aconteceu. Logo depois o valor foi achado dentro de um cesto de roupas sujas, pois temendo assalto, era comum Mário esconder [o dinheiro] em pontos diferentes da casa, dificultando a ação de um possível ladrão.”

Ainda segundo relatos da testemunha, na fuga o autor acabou deixando a faca para trás. No outro dia, o capuz feito de camiseta foi encontrado em um terreno próximo ao local do crime. Ele continha fios cabelo, que seriam usados para identificar o criminoso. A notícia se espalhou e Antônio não foi mais visto. “O crime gerou uma comoção na sociedade e entre os vizinhos foi mais ainda. Todos eram amigos e a forma como eles foram mortos chocou. Era uma época em que a violência era pouca, principalmente em relação a homicídio. Antônio era próximo da vítima.”
As investigações iniciais na época não apontavam para Antônio, mas após seu sumiço ele passou a ser o principal suspeito, sendo decretada sua prisão preventiva. A polícia chegou até a família dele, que morava em Rio Verde (GO) e Santa Helena de Goiás, mas não o encontrou.

Antônio foi localizado somente em 2004 em Nova Xavantina, no estado do Mato Grosso. Ele foi encaminhado para Uberlândia, onde permaneceu preso de janeiro a agosto do mesmo ano, passando a responder pelo crime em liberdade. “Ele sempre negou a autoria, mas há relatos de que ele chegou a dizer para alguns policiais que estava arrependido. O que prejudicou muito a conclusão desse processo foi a fuga dele por 12 anos. Diante de todas as histórias e de um vizinho que disse ter visto uma pessoa correndo na rua do crime, cujas características batiam com a do Antônio, o júri, composto por sete pessoas, entendeu que ele foi culpado pela morte dos dois.”

Antônio saiu do julgamento preso e foi condenado a 28 anos de prisão, 14 por cada homicídio cometido.


Duplo homicídio foi destaque nos jornais O Triângulo e Correio | Foto: Reprodução

RELATOS

Mesmo tarde, Justiça foi feita, diz filho das vítimas


O filho do casal Marco Antônio Jacó, hoje com 56 anos, lembra como se fosse hoje cada momento vivido naquele dia 6 de abril de 1992. Para ele, que foi testemunha do caso, mesmo tarde a justiça foi feita. Quando o crime ocorreu, Marco não morava com os pais, mas bastava abrir o portão e atravessar a rua para um estar na casa deles. Nesse triste dia, Marco relembra que pegou o pai no colo e o levou para atendimento médico. “Era madrugada quando começaram a bater na porta de casa. Fui pra rua e não via nada, só uma movimentação. Entrei na casa dos meus pais e vi meu pai ferido na sala. Coloquei ele no carro e fui para a Medicina [PS da UFU], mas ele já estava sem vida. Diante de tanta adrenalina não pensei que ele já tinha morrido. Quando estávamos na Medicina passou uma mulher em uma maca, de camisola bege com sangue na barriga. Era minha mãe. Eu não tinha visto minha mãe em casa e não achei que ela estava ferida, se não tinha socorrido os dois”, detalhou o filho, que na época tinha 30 anos.

Marco tem mais dois irmãos e quando lembra do acusado diz, com pesar, que ninguém imaginaria que Antônio cometeria um crime dessa natureza, já que era conhecido e amigo de todos. “Muito ingrato. Meu pai sempre o ajudou e tinha meses que ele não pagava o aluguel. Meu pai vivia dessa renda e do comércio que tinha. É justo ele receber pelo imóvel alugado e quando ele foi cobrar acabou sendo morto. Uma covardia.”
Na época, os corpos eram velados em casa e, de acordo com Marco, formou-se fila dupla que se estendia por dois quarteirões para as pessoas se despedirem do casal Jacó. “Eles eram muito queridos. Foi um baque muito grande que chocou não só a família, mas amigos, a sociedade como um todo. Você pode conversar com os vizinhos que conviveram nessa mesma época, todos vão lembrar do crime e do carinho que tinham com meus pais”.

BARBEIRO

Vizinha diz que não desconfiavam de autor


A reportagem do Diário de Uberlândia esteve no local do crime, nesta semana, e encontrou com a vizinha Simei da Silva, 48 anos. Ela mora até hoje na rua Paris e presenciou todo o ocorrido. 

Na época, Simei estava grávida. No dia do crime, ele escutou os gritos de socorro da dona Edith foi verificar o que estava acontecendo. “Meus pais, hoje já falecidos, tentaram socorrer os dois, mas infelizmente o pior aconteceu. Lembro dela [Edith] desmaiada ao pé da árvore em frente a casa deles. Foi um dia muito triste”, disse.

Na época, as pessoas disseram que dona Edith morreu porque ela viu o rosto do Antônio, que durante luta corporal com o seu Mário acabou tendo o capuz retirado. “Ele era o barbeiro da rua, todos cortavam o cabelo com ele e com isso veio as amizades. Ninguém suspeitava que ele poderia ter cometido esse crime. Acredito que Antônio alugou esse cômodo para acompanhar a rotina dos dois que eram ótimas pessoas. Não mereciam esse fim”, afirmou.

Simei também relembra que as pessoas disseram, na época, ter visto Antônio em um posto de saúde lavando as mãos cheias de sangue e que após acharem o capuz e a faca do crime ele desapareceu da rua. “Ele deixou até alguns pertences na barbearia. Saiu correndo, como se tivesse fugindo mesmo e estou surpresa desse caso se arrastar até hoje. Para mim ele já estava preso e condenado”.
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