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09/10/17 às 11:55

Genética do bife padrão

Em Goiás, o confinamento da fazenda Conforto vai utilizar animais originados em um único rebanho de seleção, em busca de gado uniforme para o abate

Fábio Moitinho e Vera Ondei, Dinheiro Rural

Edição AguaBoaNews, Clodoeste 'Kassu'

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Genética do bife padrão

"Somos uma fábrica de fazer carne que trabalha 365 dias no ano” Alexandre Negrão, da fazenda Conforto, em Nova Crixás (GO)

Foto: Raphael hupsel

No município de Nova Crixás, em Goiás, está um dos maiores confinamentos de gado em área única do País. Na fazenda Conforto, de 12 mil hectares, dos quais oito mil hectares são de pastos, 90 mil bois serão abatidos, neste ano, com engorda finalizada no sistema intensivo. A produção pode chegar a 28,4 mil toneladas de carcaças, volume que corresponde a 2,1% da exportação de carne bovina no ano passado. “Somos uma fábrica de fazer carne que trabalha 365 dias por ano”, diz o produtor Alexandre Funari Negrão, 63 anos, empresário que já foi o dono do laboratório farmacêutico Medley, vendido para a Sanofi por R$ 1,5 bilhão, em 2009. Mesmo já produzindo em larga escala na Conforto, Negrão não quer parar. Agora, o plano é engordar 100 mil bois em um modelo inédito no País: abater todos os animais provenientes de uma mesma base genética. Isso vai permitir uma melhor eficiência na engorda dos animais, o que significa gado de mesmo padrão de idade, peso e conformação de carcaça. Cláudio Braga, diretor-executivo da Conforto, afirma que o projeto é se­­melhante ao sistema de integração de abate de aves e suínos. “Acredito que, até 2021, a fazenda já esteja toda nesse modelo de qualidade genética”, diz Braga “Mas, ao contrário do que ocorre com os pequenos animais, nós que abatemos não seremos os donos da genética.”

Adir do Carmo Leonel: em 57 anos de selecão de gado nelore, a padronização dos animais sempre foi o seu norte (Crédito:Divulgação)

O fornecedor na parceria, fechada no início deste ano, é o grupo paulista Adir, que pertence a Adir do Carmo Leonel e seu filho Paulo Leonel, com propriedades em Ribeirão Preto (SP) e em Nova Crixás. Adir é reconhecido no setor da pecuária como um dos maiores especialistas em genética de nelore do País, principalmente na busca por um gado uniforme. A ideia de Negrão é comprar bezerros ou garrotes para o confinamento somente de criadores que tenham utilizado na vacada touros selecionados por Leonel, ou sêmen desses touros. Negrão paga, inclusive, um prêmio de 20% sobre o preço da região, cotado pelo Cepea/USP. No final do mês passado, um bezerro valia R$ 1,3 mil para a Conforto, com a arroba cotada a R$ 140. Para o agrônomo Alcides Torres, da consultoria Scot, o atual retorno financeiro no confinamento pode chegar a 4%, diferente de meses atrás quando ele era negativo. “Está va­­len­do a pena investir”, diz ele. Na Conforto, a receita esperada em 2017 é de R$ 245 milhões.

Para dar conta de encher o confinamento, Negrão compra cerca de 50 mil animais de fazendas vizinhas. São de cerca de 120 criadores, cada um com seu padrão de gado. É para deixar o modelo de compra pulverizada que ele fez a parceira com a família Leonel. Isso porque, de todo o gado comprado, o criador considera que apenas 10% possui genética superior. Com a parceria fechada, Negrão se apoia em um trabalho de seleção genética de 57 anos. Na fazenda Barreiro Grande, em Nova Crixás, está o núcleo de melhoramento do gado. São 400 fêmeas pu­­ras nelore e um grupo de 21 touros em coleta de sêmen. Eles produzem cerca de 80 mil doses por ano, com um crescimento de 15% ao ano. Além disso, são vendidos 140 touros por safra. “O que nós fazemos é conectar quem utiliza o sêmen dos nossos touros e os compradores de bezerros”, diz Paulo. “No caso, ligamos os criadores com a Conforto.” Hoje, a receita com a venda de touros e de sêmen é de R$ 4 milhões por ano, cerca de 46% do faturamento da fazenda, que também cria gado de corte. Somente na região de São Miguel do Araguaia (GO), 21 projetos de criação de bezerros já utilizam sêmen dos touros. Em geral, são pecuaristas que compram de 100 até mil doses. Para atender a Conforto, o projeto é integrar outros 12 produtores nos próximos quatro anos.

Carne mais macia

Conheça os marcadores genéticos que podem ajudar o produtor na seleção do zebu

Conhecer mais profundamente a genética do gado nelore, identificando quais são os que produzem carne de qualidade superior, tem sido uma busca constante no setor de pesquisa. Um dos objetivos é mostrar que o gado de origem zebuína pode, sim, ter a carne macia, se igualando a outras raças especializadas para corte. É o que diz uma pesquisa realizada pela Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), em parceria com a Embrapa Cerrados, de Brasília.


Raysildo Lobo: o presidente da ANCP diz que a pesquisa deixou de lado temas importantes para as raças zebuínas, por muito tempo (Crédito:Divulgação)
 
Com investimentos de R$ 3 milhões e abates técnicos de 600 animais, foram identificados os 1,6 mil touros que mais podem influenciar na geração de animais com melhores índices de maciez, ao transferir essa qualidade para os seus descendentes. “Por um bom tempo, com a crença de que animais zebuínos só davam carne dura, o tema da maciez deixou de ser alvo direto da pesquisa”, diz Raysildo Lôbo, presidente da ACNP. Segundo ele, hoje, com equipamentos modernos, menor custo, técnicas avançadas e agilidade dos resultados, a pesquisa começa a identificar cientificamente quais são os animais que podem propagar mais essa qualidade ao bife. A entidade publicou o primeiro sumário com os 832 melhores reprodutores. Além da raça nelore, o sumário traz touros das raças guzerá, brahman e tabapuã. “O próximo passo é um selo de qualidade, com a chancela da Embrapa e a ANCP”, diz Lôbo. “Isso vai ser fundamental para a difusão da tecnologia.” A expectativa é de que a certificação seja criada até o final deste ano.
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