Artigos / Caiubi Kuhn

24/02/21 às 11:05

Interacional, Flamengo, o dólar e o preço dos combustíveis

                Além do paredão do Big Brother, três outros temas foram muito discutidos nos últimos dias, sendo eles o aumento dos combustíveis, a troca na presidência da Petrobrás e a boa ação de um grande empresário do agronegócio, que resolveu pagar a multa de um milhão de reais, para que o lateral Rodinei pudesse defender o Internacional no jogo contra o Flamengo. A princípio esses temas não parecem ter conexão, mas por incrível que pareça, eles possuem uma relação sim. A disparada do preço dos combustíveis ocorreu em virtude da desvalorização do real, que por outro lado favoreceu os grandes exportadores de commodities, como o bondoso empresário do agronegócio.               

             Como o leitor já deve saber, que o preço dos combustíveis acompanha a flutuação do dólar, embora o Brasil possua auto-suficiência na produção de petróleo, devido à falta de investimentos na construção de refinarias, ainda estamos distantes de alcançarmos a auto-suficiência em refino. Desta forma, hoje o Brasil exporta petróleo, e importa derivados, e tudo isso em dólar.  

               No início do ano de 2020, um dólar valia pouco mais que 4,0 reais, porém estava muito distante dos valores atuais, em que supera os R$ 5,40. A disparada do dólar ocorreu entre janeiro e maio de 2020. Neste período o real foi a moeda que mais perdeu valor no mundo. Porém, por obra do destino, no mês de fevereiro de 2020, uma crise comercial entre Rússia e Arábia Saudita, derrubou o preço do barril de petróleo de 60,0 dólares para próximo de 20,0 dólares, devido ao fato de ambos os países terem aumentado a produção, ampliando a oferta em âmbito mundial. No mês do mesmo ano, devido a pandemia que abalou as economias no mundo todo, o consumo de petróleo e seus derivados caiu. Ou seja, o início de 2020 foi marcado por um aumento de oferta de petróleo e uma queda de consumo, que representou também a derrubada do preço internacional.
 
               Porém como já era esperado, ao longo do ano de 2020, a economia mundial foi voltando a um ritmo mais próximo da normalidade, os países exportadores de petróleo ajustaram a produção a o novo cenário. Desta forma o preço do barril de petróleo foi recuperando o valor normal, e retornando ao patamar próximo aos 60 dólares. A queda do valor do barril de petróleo escondeu a pressão inflacionária nos preços dos combustíveis no Brasil, ocasionada pela desvalorização do real. Porém com a retomada do preço normal, a conta chegou salgada.  

              A desvalorização do real é positiva para exportação, que no Brasil, é principalmente de produtos do setor mineral e do agronegócio. Os grandes empresários destas áreas estão em um bom momento, ao ponto de um deles se dar ao luxo de pagar uma multa de milhão de reais, para que um jogador possa disputar uma partida de futebol.  

            Por outro lado, devido ao intenso processo de desindustrialização que o país passou, os produtos industrializados que importamos, ou mesmo produtos alimentícios como farinha de trigo, estão muito mais caros. E essa conta fica para a população, que agora consegue enxergar com mais clareza o preço da desvalorização do real, e da política econômica desastrosa do governo atual.  

               O lucro da exportação de petróleo fica com a Petrobrás e seus acionistas, que conforme planejamento da empresa, receberão 35 bilhões de dólares em dividendos ao longo de cinco anos, sem pagar nem um centavo de imposto. Por outro lado, o custo dos derivados é repassado para os consumidores. Uma alternativa que o Brasil teria, seria alcançar a autonomia em refino, e com isso, começar a aplicar um preço nacional nos combustíveis, que não passe pela oscilação do dólar. Entretanto essa saída está na linha contrária aos planos do governo atual e da atual direção da Petrobrás, que vem vendendo pedaços da empresa a preço de banana, e ampliando a distribuição de lucros para acionistas, ao invés de ampliar os investimentos e garantir a produção necessária de refino para suprir as demandas do mercado interno.  

             Vale lembrar que a Petrobrás não possui o monopólio do setor desde a década de 90, e que hoje centenas de empresas atuam no país com petróleo e/ou gás. Porém se a empresa já possui refinarias em outras partes do mundo, ou se ela pode vender o petróleo em dólar e garantir o lucro, por que ela iria construir uma refinaria no Brasil? Afinal as grandes empresas do setor não estão preocupadas em garantir um combustível barato para você, e sim em garantir o lucro para seus sócios.  

             A troca na direção da Petrobrás, não resolverá nada, a não ser que a empresa e o governo mudem a postura, e façam os investimentos necessários para que o país conquiste a autonomia de refino de petróleo. E se você está achando ruim os preços, reclame lá no posto Ipiranga, ou seja, com o senhor que coordena equipe econômica do governo, que a todo tempo sabia das consequências da desvalorização do real, e mesmo assim permitiu que isso acontecesse e afetasse o seu bolso. 
Caiubi Kuhn

Caiubi Kuhn

Caiubi Emanuel Souza Kuhn é Docente do Instituto de Engenharia, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e Doutorando em Geociências e Meio Ambiente, Universidade Estadual Paulista (UNESP
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