Artigos / Rafael Govari

20/01/19 às 12:51 / Atualizado: 20/01/19 às 12:59

A diferença entre plantar soja no Mato Grosso e no Sul

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Foto: Divulgação

Acompanhamos as notícias que vem de Cuiabá e informam sobre aumento da carga tributária para os agricultores. O governo quer com isso equalizar as contas públicas, que há anos não fecham no azul e estão endividando o estado por conta da farra com o dinheiro público provocado pelos três poderes. Como não há muitas indústrias por aqui, a solução que o governo enxerga é tributar o agro.

Estive por alguns dias nesta virada de ano nos estados do Sul. Enquanto me dirigia na ida, na tarde do dia 18 de dezembro, recebi uma mensagem de que a fazenda que minha família planta tinha sido furtada. Os ladrões levaram mais de R$ 100 mil em defensivos. Só na região de Canarana, mais de R$ 20 milhões em defensivos foram furtados nos últimos cinco anos. É fato que existe uma quadrilha bem estruturada agindo por aqui.

Ainda no caminho, no estado do Paraná, fui abastecer o veículo com diesel S10 e paguei R$ 2,95 o litro, enquanto aqui no Mato Grosso é mais de 4, isso por conta do imposto sobre o combustível em nosso estado. É o diesel que movimenta as máquinas nas lavouras. Também descobri que a saca de soja, próximo aos portos do Sul vale mais que R$ 75,00, enquanto que em Canarana não chega a R$ 60,00. Conversando com um familiar, ele me contou que no Rio Grande do Sul não tem Fethab ou outros impostos sobre a soja, que existem aqui no Mato Grosso.

No dia 03 de janeiro estive em Panambi-RS, onde conversei com o subsecretário de Indústria. Fui conhecer mais de como a cidade se tornou um polo industrial. Disse a ele que no Mato Grosso quase não tem indústria, que aqui não se produz nem sequer pé de pato, porém, mesmo assim, disse a ele que o futuro está aqui, seja no aumento da produção agrícola, seja pelo potencial em beneficiar a produção agrícola através da atração de indústrias. Também falei que não entendia do motivo de não existir ações mais contundentes por parte do governo de Mato Grosso para atrair empresas para cá.

Porém, vejo que, apesar do futuro estar aqui por conta das oportunidades, esse futuro pode demorar um pouco mais a chegar. Se até agricultores do Sul quebram, imagine os de Mato Grosso? É um enorme desafio ter lucro plantando no Centro Oeste tendo recorrentes prejuízos com roubos, pagando R$ 1,00 a mais no litro do diesel e pagando mais em tudo o que se usa na agricultura, recebendo R$ 15,00 a menos por cada saca de soja, pagando impostos que no restante do Brasil não se paga.

Pelo menos no papel, a ideia mais lógica para os problemas financeiros crônicos do governo de Mato Grosso é cortar gastos nos três poderes, incentivar o aumento da área plantada para girar a economia e atrair indústrias que geram, além de emprego e renda, impostos para o governo. Com eficiência na gestão e crescimento econômico, sobraria dinheiro para oferecer melhores salários aos servidores e melhores serviços aos contribuintes, principalmente na saúde, hoje um caos.

Porém, o caminho que se quer tomar, aumentando a carga tributária, apesar de ser uma solução mais fácil, rápida e, por conta da farra do dinheiro público há anos, talvez necessária nesse momento, assusta e bloqueia futuros investimentos no estado, seja no campo, seja na indústria. Há o risco, inclusive, de diminuir a área plantada e de concentrar mais terras nas mãos cada vez mais de menos gente, porque os pequenos e médios, endividados, vão aos poucos saindo da atividade e vendendo para grandes grupos, que conseguem comprar insumos mais baratos e vender o grão por preços melhores.

A boa notícia que me parece existir do plano do governo é que agora os grandes produtores, que geralmente encaminham a produção direto para a exportação, também serão taxados, porque até então a maior parte dos impostos somente ficava nas costas dos pequenos e médios produtores. Porém, se essa iniciativa não vier acompanhada de enxugamento dos gastos públicos e políticas para investimentos, no próximo ano terá que aumentar novamente tributos e, além de comer o ovo, estamos chegando bem perto do limite de começar a comer a galinha.

Acredito que esse estado é muito rico, tem um grande potencial e que o futuro continua morando aqui, mas como escrevi, o aumento da carga tributária, fará o futuro demorar um pouco mais a chegar e fará muita gente ficar pelo caminho.



 
Rafael Govari

Rafael Govari

Rafael Govari é jornalista e vereador em Canarana
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