Artigos / Alan Rodrigo Apio

31/08/15 às 14:16 / Atualizado: 31/08/15 às 14:23

PARTE 3 – O SANGUESSUGA

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 Como apresentei em meu último ensaio, um estudo das relações de poder, toda relação humana é uma relação de poder em sua essência. Com isso em mente caminhamos para a identificação de mais um espécime político comum aos brasileiros e que faz parte do meu esforço pessoal para classificar e tentar entender um pouco mais o funcionamento da política em nosso país.

Ao contrário do que o senso comum pode levar a sugerir, a ambição pelo poder é incomum entre as classes mais pobres de uma sociedade, pelo simples fato que tais pessoas enfrentam uma luta diária de sobrevivência que as afasta na sua maioria, por exaustão e consequente desinteresse, das questões de poder. Por isso, sendo o caminho político uma forma de poder, não é de se estranhar que a classe mais pobre não se envolva com o assunto.  Alguns pensadores inclusive correlacionam um aumento na ambição política de uma população a uma melhora em sua condição econômica. Como menos preocupações mundanas, como a necessidade de se manter mais de um trabalho, possibilita-se a aquisição de conhecimento e o manejo mais adequado do tempo para se trabalhar com questões mais intelectuais, como a política.

Porém, a política tem muito pouco de intelectual e muito de promoção de indivíduos ou organizações de poder com fins em si mesmo. Nessa situação é extremamente plausível que surjam indivíduos que reclamam para si a voz de extratos da população que não assumiriam os próprios interesses dessa forma. E sendo toda a relação humana fundamentalmente uma relação de poder, a ambição ou a vontade desempenham um importante papel nas decisões de busca de poder de um indivíduo. E se a vontade do indivíduo se equipara com o vácuo deixado pela população em si, esse será rapidamente preenchido, pois na política não existe posição de poder que fique vaga por um tempo maior do que aquele necessário para que seja ocupado por outro indivíduo.  

Não é surpresa então, que em sociedades ricas e emergentes, como é o caso do Brasil, aja um aumento na criação de associações de representação de minorias, como negros, índios, mulheres, gays, viciados, sem-terra, sem-teto etc. O vácuo deixado por esses extratos da população é rapidamente preenchido por indivíduos ambiciosos, bem-intencionados ou não. E aí que mora o perigo. A intenção que move um indivíduo é uma área bem delicada da sua vontade e que apresenta uma fina divisão entre o altruísmo sincero e o ego individualista. É inegável que nos dois lados da cerca a ambição pelo poder se faz necessária. Os bons anseiam serem ouvidos tanto quanto os maus. Mas a eleição não formalizada, não declarada e inconsciente de representantes de minorias pode levar a adoção de equívocos como verdades, fracassos como sucessos e posturas violentas e de tirania, como medidas necessárias para se atingir o objetivo final.

O principal erro aqui é não deixar claro quais são os objetivos de um movimento, organização ou qualquer ação política. Erro de quem segue a doutrina diga-se de passagem. A adoção de objetivos etéreos ou abstratos demais só privilegia os rostos políticos ambiciosos por poder enquanto os verdadeiros interessados se veem presos a um espiral de promessas e resultados pífios de medidas descabidas. Em bom português, você virou um peão no jogo de xadrez dos mal-intencionados.

A adoção de objetivos claros e pautados em medidas reais e concretas não deve ser o único, mas é uma excelente maneira de se analisar a competência dos líderes de uma ação e sua sinceridade. A capacidade de se reconhecer erros e de mudar de estratégias em ocasiões assim são outros indicativos positivos. Indivíduos mal-intencionados tem pouca atenção aos resultados de um programa social ou político, dando muito ênfase nas intenções. Um exemplo clássico é o das políticas de cotas raciais. Essas medidas afirmativas são defendidas por muitos sujeitos de poder com ferocidade, apesar da experiência mostrar cada dia mais que elas não funcionam de fato. Porém a simples menção da inviabilidade funcional da medida já é motivo de violenta resposta por parte dos sujeitos de poder que organizam essa ação. E o motivo é simples. O que motiva a esses indivíduos não é necessariamente o fim da discriminação contra os negros, mas as posições de poder que conquistarão com essa ação. E para solidificar suas posições farão de tudo para justificar a sua presença, até mesmo superestimar algum problema.

Nessa tática especializou-se um tipo muito específico de político, o qual chamarei de sanguessuga. Esses sujeitos aprenderam a explorar com maestria as subpopulações com a adoção de discursos de ódio e do “vitimísmo”. Ao assumirem posições de representantes dessas minorias, imediatamente tendem a procurar a defesa de políticas compensatórias justificadas como forma de correção histórica de injustiças passadas ou supostas desequilíbrios sociais. Vendo além do aspecto funcional de tais políticas, que é perfeitamente questionável, insisto que se ignora completamente as injustiças provenientes dessas ações e os perigos que elas trazem para os processos sistêmicos de uma sociedade. Nisso até mesma as boas intenções são destorcidas pelas leis naturais de uma sociedade. Exemplo, a adoção de políticas de transferência de renda, apesar de imediata benfeitoria a populações de risco, rapidamente evolui para um sistema de dependência estatal crônica e que privilegia a figura política em destaque.  Outro exemplo, já citado, a adoção de cotas para o ensino superior como tentativa de compensação histórica das minorias (no caso uma ‘minoria’ no Brasil de 50% a 60% da população) ignora os processos sistêmicos e históricos do problema e mascara com falsos positivos as avaliações de diversidade no ensino superior. O ganho político com tais medidas imediatas é evidente, apesar de falso. 

A minha sugestão pessoal é que você desconfie de toda política de apoio a minorias e que não deixe nas mãos de outros as decisões que você pode tomar por si. Não aceite o papel de vítima. Não alimente os sanguessugas. Aprenda logo cedo que o mundo é por natureza duro e injusto. Alguns nascerão mais ricos que você, outros mais inteligentes, outros nascerão cegos, alguns em meio a uma guerra civil, outros morrerão jovens.  Não há justiça em um mundo injusto. Você pode aceitar o papel de vítima de um mundo maior que você ou você pode escolher não acreditar que você nasceu para fracassar. O primeiro passo para o sucesso é acreditar que você o merece. Saiba que a vontade e no que se acredita desempenham um papel extraordinário na mente humana, tão impressionante que altera a própria realidade. Baseia-se nas histórias de sucesso de pessoas iguais a você, e deixe morrer à mingua as sanguessugas do poder e das fraquezas alheias.
 
 
Alan Rodrigo Apio

Alan Rodrigo Apio

Alan Rodrigo Apio é produtor rural, biólogo, fundador do Movimento Cívico das Vítimas de Trânsito - MOVETRAN e presidente da AMAB - Associação MultiCultural de Água Boa.
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