Artigos / Eduardo Gomes de Andrade

22/08/15 às 23:14

O Araguaia na mira

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Mato Grosso enfrenta problemas que boa parte de sua população desconhece. Isso se deve a dois fatores: primeiro, a dimensão territorial; e depois a dualidade da realidade entre o campo e Cuiabá, que mesmo se relacionando harmonicamente são separados por seus modelos econômicos dos quais resultam a sociedade e seus conceitos.

Ainda não se trata de problema para Mato Grosso, mas é uma grave ameaça ao Estado a decisão tomada em 26 de novembro do ano passado, pela secretária do Patrimônio da União, Cassandra Maroni Nunes, que baixou portaria criando um grupo de trabalho (GT) com o objetivo de promover estudos sobre 1,6 milhão de hectares margeando o rio Araguaia, por entender que aquela área é de interesse da União para promover reforma agrária calcada em suposto interesse social.

A região em objeto é considerada pelo GT várzea do Araguaia, pois no período das águas altas, parte da mesma próxima ao leito do rio Araguaia é inundável. Em Mato Grosso essa área se estende por Luciara, Canabrava do Norte, Novo Santo Antônio, Porto Alegre do Norte, Santa Terezinha e São Félix do Araguaia, e avança sobre os municípios de Formoso do Araguaia, Lagoa da Confusão e Pium, na margem direita do rio, em Tocantins.

Esse GT foi discutido no dia 17 deste mês, numa audiência pública na Assembleia Legislativa e no dia seguinte foi manchete da edição deste Diário. Autoridades e produtores rurais da área sob estudos temem que a União expulse a atividade econômica naquela região repetindo o que aconteceu no final de 2012 sobre a gleba de 165 mil hectares que pertenceram à antiga fazenda Suiá-Missú foi transformada na reserva indígena Marãiwatsédé. A criação de Marãiwatsédé resultou na destruição da vila de Estrela do Araguaia e botou à beira da estrada mais de 1.500 mulheres, crianças, idosos, homens de mãos calejadas e portadores de necessidades especiais.

A criação do GT leva as impressões digitais do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão ao qual se reporta a Secretaria de Patrimônio da União. Pelas regras federativas Mato Grosso não tem mecanismos para barrar os estudos do GT em sua fase sem contraditório. Resta ao Estado, por sua bancada federal, seu governador e a Assembleia Legislativa pressionar politicamente em defesa do interesse dos mato-grossenses que serão atingidos caso se consolide a transferência da área, de seus proprietários, para os interesses sociais de Brasília. Quanto a isso, é preciso que se crie, com urgência, uma aliança política com o vizinho Tocantins, que também está na mira do mesmo procedimento.

Ainda sangrando socialmente com a desintrusão de Marãwaitsédé, Mato Grosso não pode aceitar nova ingerência da União em seu mosaico fundiário. Que o campo e Cuiabá se identifiquem mais, que juntos passem a falar a mesma língua, pois entre eles há interesses comuns, além da identidade mato-grossense e, essa, não pode ser desfigurada para atender interesses políticos dos donos do poder em Brasília.

Mato Grosso não pode aceitar nova ingerência da União em seu mosaico fundiário

Publicado no editorial do Diário de Cuiabá de 23.08.2015

 
Eduardo Gomes de Andrade

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Eduardo Gomes de Andrade – jornalista
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  • por Alan Apio, em 24/08/15 às 16:16

    Exatamente isso. Vamos agir!

 
 

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