Artigos / Gabriel Guidotti

22/02/16 às 00:17

A visão dos cronistas

Imprimir Enviar para um amigo
“Procura-se um cronista”, li em um jornal rasgado qualquer. O papel estava deteriorado, mas o título era legível. Como veio parar ali? Jamais saberei. O que sei é que nada sei, sem ser filosófico. Procuram um cronista. Procuram alguém para fazer Robin suplantar o Batman e que isso faça sentido. O que desejam é um torcedor do Brasil e da Argentina que ame as duas seleções incondicionalmente. Uma arte da conversação maluca e aberta a amizades, portanto.
 
O cronista nunca se prende apenas ao seu próprio estilo. Adere a outros. Suas opiniões são mascaradas e movem uma catarse para serem compreendidas. Convenhamos, em tempos de necessidade desumana pelo pragmatismo, uma quebra com o protocolo vem como um alento, fazendo as pessoas rir entre tragédias e gostar de coisas que jamais teriam imaginado. Quem escreve crônicas, escreve sonhos – delírios, às vezes.
 
Mesmo que não faça sentido em um primeiro momento, o texto prevalecerá como um mosquito insistente no escuro, com seus barulhinhos de asas aterrorizando nossos ouvidos. Essa é a função da palavra: indagar, criar a dúvida, amolar para desenvolver pensamentos. Se o cronista fornecesse uma ideia de cara, que graça haveria? Tudo que é dado não tem o valor daquilo que é conquistado.
 
O cronista deve desafiar a mente de seus leitores. Não é uma tarefa fácil e requer muita habilidade na produção dos sinais que serão enviados. Mas com muito trabalho e leitura fica fácil. Você consegue, quem sabe, escrever um grande texto – não um texto grande – em minutos. Os conceitos e as prosas vão saindo tão facilmente que você nota: nasceu para fazer aquilo. Ninguém pode lhe tirar isso. Nunca.
 
Portanto, procuram-se cronistas. O espaço para divagar entre humor e solilóquios de razão está cada vez menor para que loucos do amanhã escrevam balbúrdias do passado. Desperte o tino misterioso e divertido que há em você. Escreva sobre a morte falando da vida. Beba uma cerveja pesada afirmando que ela é fraca como água. Saia do marasmo, pois o mundo é colorido e cheio de oportunidades. Definitivamente, procuram-se cronistas.
Gabriel Guidotti

Gabriel Guidotti

Gabriel Bocorny Guidotti é bacharel em direito, jornalista e escritor.
Porto Alegre – RS
ver artigos

comentar  Nenhum comentário

AVISO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Agua Boa News. É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O site Agua Boa News poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os critérios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema da matéria comentada.

 
 

veja maisArtigos

João Spenthof

Cooperativismo de crédito: trabalhar para transformar

Cooperar é uma palavra que tem várias definições. Uma delas é operar em conjunto, é – o que podemos dizer – ser coautor(a) de uma mesma obra. Esses “coautores” são chamados de...

 
 
 
 
Sitevip Internet