Artigos / Alan Rodrigo Apio

07/08/15 às 12:53 / Atualizado: 22/08/15 às 10:22

O vírus da incompetência política

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Em um momento histórico para o Brasil, a corrupção nos altos escalões da República e nas maiores empresas privadas do país é posta contra a parede. Nunca se falou tanto nela, nunca seus efeitos nocivos foram tão claros. Nunca antes na história desse país (sic) a corrupção foi tão odiada. O problema é que a corrupção não é o único e nem o maior problema que infesta o poder no Brasil.

Em meu último artigo, detalhei uma prática política a qual chamei de carniceira. Em resumo, é um comportamento de beneficiamento político individual ou de pequeno grupo em relação a uma situação extrema, como a pobreza, um crime de assassinato, uma tragédia aérea, a corrupção. Na mesma oportunidade ressaltei a necessidade de se enfatizar as diferenças dessa prática política com a de outra, bem parecida, mas essencialmente diferente: A política da incompetência. E fã de analogias como sou, não poderia perder mais essa oportunidade de relacionar esse assunto com outro tema bem familiar ao brasileiro.

A incompetência, assim como a dengue, é epidêmica no Brasil. Afeta todos os setores, de todos os estados, com uma violência e com uma eficácia assustadora. Enfraquece estruturas, causa extremo desconforto, gera sofrimento, perca de rendimento e recursos e em vários casos, causa a morte. E assim como o vírus da dengue, a incompetência encontrou refúgio perfeito em um sistema historicamente falho, em uma população profundamente mal instruída e teimosamente pouco vigilante. Mas por incrível que pareça, infelizmente, dado as atuais circunstâncias, o problema da dengue esta muito mais próximo de uma solução positiva.

Ser incompetente é ser inábil em desempenhar com adequada e necessária perícia uma determinada tarefa. E essa é a melhor definição que descreve nossos administradores públicos em nível nacional. Uma das evidências dessa incapacidade de se tomar decisões eficientes no âmbito público é a conhecida fama de pouca qualidade dos serviços públicos. Note bem que o senso comum da população é que a administração pública brasileira é terrivelmente pouco eficiente não por uma falta crônica de recursos, mas por uma construção precária do poder. Essa noção se baseia na altíssima carga tributária arrancada da população, mas que não resulta em benefícios visíveis. Para onde foram meus impostos? Parte se perdeu pela corrupção, parte se gastou para manter o próprio sistema e uma parte retorna através de serviços precários. É um esquema que drena anualmente bilhões e bilhões em recursos da população em uma taxa crescente, mas que não altera o quadro de pouca qualidade. Em um país com tantos recursos arrecadados e serviços tão ruins, é muito claro que o principal problema é de natureza administrativa.

 Enquanto os gastos com a corrupção somam, de acordo com pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) cerca de 50 bilhões de reais por ano, a conta do desperdício por má administração é muito mais complexa de se fazer. E provavelmente muito mais assustadora. Somam nessa conta incontáveis obras faraônicas que se mostraram desnecessárias ao longo do tempo, como os estádios da copa do mundo construídos em cidades sem tradição no futebol. Obras pensadas, projetadas e executadas baseadas em metas e resultados superestimados, como a transposição do rio São Francisco. Ferrovias que são construídas de maneira que impossibilitam o fluxo livre entre suas linhas ou mesmo levam a lugar nenhum. Projetos de mobilidade urbana como os de Cuiabá que até hoje não foram entregues e estouraram e muito o orçamento inicial. A lista é virtualmente sem fim. Juntamente com a corrupção, podemos dizer que esse país encontrou uma maneira muito eficiente em queimar dinheiro de impostos para produzir resultados pífios. Somos eficientemente incompetentes e corruptos.

É muito claro que a corrupção leva a casos de políticas e projetos superfaturados, mal planejados e ineficientes. Incompetência e corrupção andam juntas. São duas apaixonadas cínicas dançando em uma valsa eterna, uma empurrando e influenciando os passos da outra. Mas são raras as manifestações em protesto ao uso inadequado do dinheiro. Por quê? Porque os males da corrupção, de natureza sórdida, chama mais atenção do que a incompetência. Esse país, contudo, ainda possui uma imprensa livre e investigativa, um poder judiciário forte e diversas outras instituições que fiscalizam as práticas corruptas dos poderosos e no mínimo os causa certo desconforto. Mas a incompetência ainda é subestimada. A extensa eleição de iletrados e analfabetos, a ausência clara de um projeto de governo, a maquiagem das ideias em favorecimento de um discursinho pragmático escondem dos olhos já quase cegos da população a profunda e total pobreza política intelectual brasileira.

Felizmente existe  em muitos lugares bons exemplos. Boas ideias que já se transformaram em resultados positivos que servem de guia político ao Brasil de amanhã, como demonstram as avaliações positivas de muitas cidades e suas respectivas boas colocações em ranks de boa administração pública. Em exemplo recente de decisão administrativa inteligente, foi a entrega do Hospital de Urgências de Goiânia, o HUGO, à iniciativa privada, mais especificamente a um grupo social. Tal medida já trouxe resultados animadores e expõem as melhoras  que um sistema pode sofrer apenas com a remodelação do seu quadro e política administrativa. No caso específico do HUGO, a demissão de funcionários incompetentes e a contratação de gente capacitada, além da diminuição da burocracia. Tudo isso sem geração de custos extras aos contribuintes.

O caso do hospital em Goiânia é importante para analise porque demonstra a importância de se ter administradores capacitados também para cargos públicos. Nada substitui o conhecimento! O exemplo máximo é o de uma empresa privada comum, onde se espera que os cargos em todas as posições sejam ocupados pelas melhores e mais capacitadas  pessoas que existem disponíveis no mercado e que sua carreira e salário sejam avaliados de acordo com o seu mérito individual. Quanto mais competente os indivíduos, quanto mais competente e eficiente a política da empresa, mais ela lucrará. Nada disso ocorre no setor público, onde há procura por uma vida profissional fácil e segura, a ausência de metas claras de desempenho e adoção de políticas puramente eleitoreiras ou populistas infesta o setor. Para comparação, se o Estado brasileiro fosse uma empresa privada, esse país já teria quebrado. Mas o país não é uma empresa e esse não gera riqueza, ele apenas a toma. De você.

Então da próxima vez que você for escolher um administrador para a “empresa Brasil” e suas filiais por esse vasto território, pesquise a história administrativa desse cidadão. Procure saber se suas ideias tem respaldo na realidade. Veja além da decepção e das promessas fáceis e procure ver se os projetos que esse administrador expõe são realizáveis com base em recursos atuais. Pergunte a ele ou a ela quais são os planos deles para reduzir a burocracia e aumentar a eficiência. Se te olharem com uma expressão de espanto que traduz uma situação como “Do que esse sujeito esta falando?” ou se divagarem habilmente da resposta, caia fora. Invista seu voto em outro lugar. A batalha contra a incompetência está apenas começando e é melhor você fazer a sua parte. Ah, e mais uma coisa. Não deixe a água acumular em potes e vasilhas.  Cuidado, a dengue mata!

 
Alan Rodrigo Apio

Alan Rodrigo Apio

Alan Rodrigo Apio é produtor rural, biólogo, fundador do Movimento Cívico das Vítimas de Trânsito - MOVETRAN e presidente da AMAB - Associação MultiCultural de Água Boa.
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