Artigos / Alan Rodrigo Apio

02/12/15 às 20:23

O Capitalismo Verde

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Foto: Google Imagens

Na ocasião do rompimento da barragem da empresa Samarco em Minas Gerais, juntamente com as terríveis consequências humanas e ambientais que se seguiram à tragédia, uma enxurrada de críticas ao capitalismo despontou pela internet. No meio de todas as acusações e também de todas as defesas, ficou mais claro a divisão do ativismo ambiental atual em duas vertentes. Uma enxerga a importância dos incentivos econômicos na busca por uma sociedade mais responsável ambientalmente e a outra, acredita que a preservação ambiental passa necessariamente pela superação total do atual modelo capitalista. Qual é o melhor caminho? Para responder a essa pergunta devemos entender primeiro o que é capitalismo.

O capitalismo é um sistema autocorretivo e auto-balanceável, baseado na aplicação e na evolução de práticas de produção que são controladas pelos preços, que por sua vez são determinados pela capacidade de produção por um lado e pela demanda desses produtos e serviços do outro. Por tal razão, o capitalismo tende a atender e responder muito bem ao interesse dos consumidores, os verdadeiros mantenedores do sistema, quando em condições competitivas livres e justas. Em uma economia livre, portanto, isso significa que a reputação de uma empresa é vital para sua existência. Empresas institivamente tentarão realizar as exigências da demanda para poder assim lucrar mais e não perder o consumidor para algum concorrente. E é com esse aspecto em mente que os defensores dos incentivos capitalistas para preservação ambiental se fundamentam. Sendo a busca do lucro o objetivo primordial de uma empresa e esse dependa do consumo, a lógica de produção caminhará para preservação quando o consumidor adotar essa lógica. É o consumidor, em uma sociedade capitalista, o diretor e organizador dos quadros produtivos. É através do somatório das decisões de compra que sistemas de produção são selecionados ou eliminados, levando à evolução gradual de todo o sistema. Isso significa que se as corporações adotarem mais políticas eco-sustentáveis isso se dará não por razões altruístas, mas porque tal prática foi selecionada evolutivamente por ser mais lucrativa. Portanto, de acordo com essa concepção, quanto mais a preservação ambiental estiver compatível com as leis do mercado mais rapidamente esse patamar será atingido.

Por outro lado, a outra vertente do ativismo ignora as regras do sistema, e busca através da adoção de critérios ditos “mais humanistas” (como sinônimo de altruísmo) a completa superação do atual sistema capitalista em função de um mais compatível com a preservação ambiental. Essas duas concepções baseiam se em duas visões completamente diferentes da própria natureza humana. Enquanto o defensor da postura mais “humanista” se baseia na concepção de que o homem é por natureza bom e a sociedade e suas instituições de alguma forma o corromperam (ler Rousseau), o capitalista defensor dos incentivos vê com mais desconfiança a natureza humana, que é interpretada por ele como tendo muito de mesquinha, competitiva e egoísta. Por tanto esse defenderá que a melhor forma de se mudar a concepção de produção é a através da evolução do próprio capitalismo e sua lógica, enquanto que o primeiro defenderá o rompimento com essas estruturas (sistema), que para ele limita o potencial do homem em si. Enquanto um defende a política de incentivos (capitalista) para realizar reformas, o outro (romântico) defende a política de intenções com objetivo da mudança total. Dito isso vamos as considerações.

O problema em aplicar mudanças estruturais muito importantes é que a envergadura das consequências é proporcional a complexidade do sistema. Por ser o sistema capitalista o resultado da evolução de trilhões de relações não centralizadas ao longo de séculos, a adoção de um sistema inteiramente novo invariavelmente levaria a supressão de direitos e de liberdades individuais, ou seja, só se manteria pela aplicação da força de ordem do Estado, o que inevitavelmente leva ao totalitarismo (destino de todas sociedades com economias planificadas, como foi o caso das comunistas). O fracasso de tais políticas será inevitável pois a própria natureza humana é inevitavelmente falha, o que resultaria, mais cedo ou mais tarde, na presença de pessoas erradas nos lugares errados. E como disse Milton Friedman, um sistema que dependa da pessoa certa no lugar certo não é um bom sistema.  Faz mais sentido evoluir paulatinamente para um sistema onde até a pessoa errada sinta-se compelida a fazer a coisa certa. Como por exemplo a questão ambiental, que por uma lógica de mercado criar-se-ia, ou melhor, evoluir-se-ia para um sistema mais sustentável, mesmo e independentemente do fato de seus membros agirem pelos motivos “errados” ou não. Essa concepção possui falhas, mas ainda é uma melhor alternativa do que a descrita abaixo:

“ (..) só há uma maneira de conservar o ambiente natural: ter menos desenvolvimento, menos indústria (...)E, ironicamente, este é exatamente o modo como vivem os povos indígenas e as comunidades tradicionais”¹

Esse é um pensamento assustador, perigoso e infelizmente muito comum. Acorrentado à imagem do homem naturalmente bom está a noção romantizada de uma natureza que é a projeção mental de uma visão do éden na Terra, onde o novo homem simplesmente retornaria a uma condição primitiva mais pura, que ele perdeu há muito tempo, corrompido pelas instituições. Quando adotada como filosofia individual, essa concepção de vida é uma idiossincrasia interessante, mas quando praticada como ativismo político cria-se um perigoso precedente para a coerção social e para trágicas políticas econômicas. Além disso, tal posição significa um rompimento definitivo do diálogo com as partes interessadas, visto que para o defensor dessa filosofia somente é aceitável a superação, ou seja, a destruição completa desse modelo e, portanto, da forma de vida desses produtores. É simplesmente uma péssima forma de articulação política, pois diante de um plano de superação, aqueles mais expostos ao risco tendem a adotar uma posição ainda mais conservadora. E a razão para tal desconfiança é noção clara por eles que a adoção de políticas sociais e econômicas de maneira precipitada pode levar a resultados tão ou mais desastrosos do que qualquer desastre ambiental causado pelo homem (Leia sobre O Grande Salto para Frente, políticas de distribuição de terras e produção de Mao Tse Tung que levou a morte de dezenas de milhões por fome na China) ².

No campo das alternativas, podemos pensar em diversas formas de aplicar a lógica capitalista em favor da preservação. Por exemplo, como alternativa ao burocrático, corrupto e lento trabalho das instituições públicas ambientais poder-se-ia transferir a responsabilidade da outorga das licenças ambientais a empresas de avaliação privadas, compostas por cientistas e não por burocratas e que seriam mantidas por um sistema de notas e reputação que refletiriam em sua lucratividade. Dessa forma, a lógica seria voltada para elaboração de projetos cada vez mais ambientalmente adequados, menos sujeitos a corrupção e ao relaxamento da fiscalização. Caminharíamos da situação onde dependemos do caráter de um burocrata sentado em uma mesa para uma situação onde até o mais corrupto sujeito procuraria fazer o que é certo.

Essa proposta vai de encontro com a atual política, que atualmente baseia-se no trabalho de agências governamentais e da adoção de normas técnicas cada vez mais complexas e numerosas, que só levam a uma maior necessidade de aproximação das empresas para com o Estado. Esse que por sua vez, quando excede o papel de simples fiscalizador, deforma o verdadeiro jogo capitalista, transformando-o em um sistema corporativista, onde empresas não são mais governadas pelas leis do mercado e o seu sucesso determinado por sua eficiência, mas sim de quão eficiente e profunda é sua relação com burocratas e políticos (leia sobre o caso Uber X Taxistas) ³. Em um sistema corporativa assim, casos como ocorrido em Minas se tornam comuns, pois uma empresa ignora e incorpora problemas metodológicos de produção que de outra forma estariam limitados se sofressem o escrutínio das regras do mercado.

Outro exemplo é a questão do desmatamento. Deve se reconhecer que a lógica do mercado trabalha contra a preservação. A derrubada das florestas para obtenção de madeira ainda é largamente suportada pela indiferença dos consumidores quanto a origem do produto adquirido e pelo menor custo de produção por metro cúbico de madeira em comparação com métodos mais sustentáveis. Usar a lógica do capitalismo nesse caso é legitimar as práticas positivas de exploração, como o plantio de florestas para corte futuro ou a aplicação de métodos de derrubadas sustentáveis. A aplicação de incentivo que garanta que o produto legal de madeira se torne rentável reduzirá a pressão sobre as florestas naturais, tornando-os os produtores legais os principais aliados contra a prática ilegal. A mesma situação se aplica a agricultura. Famintos por maior lucratividade, os agricultores procuram institivamente o aumento da produtividade, ou seja, a quantidade do que é produzido em um ano em uma mesma área. Por essa razão, o plantio direto, a produção compartilhada entre duas ou mais culturas e o uso de variedades de plantas geneticamente modificadas resistentes a pragas e a seca foram selecionadas como eficientes meios de produção e que inconscientemente possuem o efeito de garantir a preservação de áreas florestais que antes seriam abertas para atender à crescente demanda mundial por alimentos.  Vê se, portanto que a ação inconsciente, egoísta e independente de indivíduos gerou um conjunto de inovações que beneficiaram a todos. E é esse, talvez, o mais espetacular aspecto do capitalismo, sua imensa capacidade de gerar e distribuir invenções, novidades, ideias e benesses para toda cadeia de consumidores da maneira mais rápida e eficiente, enquanto mantem o máximo de liberdade possível do indivíduo.

Nós não devemos condenar o desenvolvimento, a indústria ou agricultura que tantas facilidades e benesses trouxeram a vida humana nem adotar o discurso político de ódio ao atual modelo ou mesmo sucumbir ao discurso do medo, mas sim direcionar a inventividade da máquina capitalista para um lado mais verde e sustentável. E já existem os primeiros avanços nessa direção. Há uma indústria inteiramente nova surgindo nesse exato momento para atender as demandas crescentes de energia limpa (solar e eólica). Novas empresas começam a oferecer carros elétricos eficientes como opções confiáveis aos veículos movidos a gasolina. O agronegócio, apesar dos duros golpes sofridos pelas intervenções do Estado, ainda está investindo na indústria dos biocombustíveis. Em todos os cantos do mundo, de alguma forma, a iniciativa privada está abrindo novos caminhos rumo a um mundo mais responsável ecologicamente a uma velocidade espantosa que só o capitalismo seria capaz de atingir.
E é por isso, por uma questão de lógica processual e garantias de liberdades individuais que o ativismo ambiental se fará muito mais eficiente ao adotar a lógica capitalista, enquanto trabalha com a educação do consumidor comum, a real força motriz do desenvolvimento e seleção dos meios de produção. No final, um mundo mais ecologicamente responsável não será um lugar inteiramente novo, com um sistema econômico elaborado e mais “humanista”, mas sim um mundo como uma versão melhorada do capitalismo em si.
 
Para leitura:
  1. https://capitalismoverdeneocolonialismo.wordpress.com/2014/12/08/a-ultima-fronteira-do-capital/
  2. http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=94
  3. http://veja.abril.com.br/noticia/vida-digital/indice-uber-ou-como-medir-o-apreco-ou-a-aversao-pela-livre-iniciativa/
 

 
Alan Rodrigo Apio

Alan Rodrigo Apio

Alan Rodrigo Apio é produtor rural, biólogo, fundador do Movimento Cívico das Vítimas de Trânsito - MOVETRAN e presidente da AMAB - Associação MultiCultural de Água Boa.
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  • por GISLEIA MENEZES, em 02/12/15 às 23:26

    "Em todos os cantos do mundo, de alguma forma, a iniciativa privada está abrindo novos caminhos rumo a um mundo mais responsável ecologicamente a uma velocidade espantosa que só o capitalismo seria capaz de atingir.". Texto surpreendente! Meus parabéns pelo raciocínio claro e sóbrio acerca de um tema tratado atualmente com uma veia política descabida e perigosa às liberdades individuais.

 
 

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